A gente já falou bastantes vezes sobre o Oneance e os lançamentos que o projeto apresentou ao longo deste ano. E, sinceramente, um lançamento parecia superar o outro. Mas “Auri Sacra Fames” é uma coisa fora do normal, no melhor sentido possível. Porque aqui A. não demonstra apenas ser um artista capaz de criar uma verdadeira obra de arte sonora. Ele também entrega letras que atingem em cheio quem está escutando, criando uma experiência que vai muito além do peso do metal. Existe pensamento, existe identidade e existe uma honestidade artística rara de encontrar.
O Oneance nasceu em Brasília, em 2016, como um projeto conduzido integralmente por A., responsável pelas composições, performances, mixagem e masterização das músicas. Essa independência faz toda a diferença. Cada lançamento carrega uma assinatura muito própria, construída sem concessões e alimentada por influências que passeiam pelo shoegaze, post-metal e black metal. Agora, com “Auri Sacra Fames”, o projeto mergulha pela primeira vez com ainda mais intensidade nos territórios do metalcore e do hardcore, expandindo uma identidade que já era extremamente sólida.
Desde os primeiros segundos, a faixa constrói um ambiente quase sufocante. As guitarras parecem criar uma parede sonora gigantesca enquanto os vocais surgem como um grito de libertação, de confronto e de resistência. É uma música pesada, mas nunca gratuita. Cada explosão instrumental parece existir porque existe algo urgente para ser dito.
Nós, da Divergent Beats, sempre acreditamos que o melhor metal é aquele que faz pensar tanto quanto faz sentir. E “Auri Sacra Fames” faz exatamente isso. Existe um trecho que simplesmente ficou preso na nossa cabeça desde a primeira audição: “Prefiro o abismo do caos do que o abismo da ordem.” É uma frase poderosa, quase filosófica, que resume perfeitamente a atmosfera construída pela música. Ela não entrega respostas fáceis. Pelo contrário, nos joga dentro de um conflito constante entre liberdade, controle e sobrevivência.
É justamente aí que mora a força do Oneance. O projeto consegue transformar agressividade em reflexão. O peso nunca serve apenas para impressionar; ele serve para amplificar aquilo que as palavras carregam. E quando essas palavras encontram uma sonoridade tão intensa, o resultado é devastador.
Outro momento que nos marcou profundamente acontece quando ouvimos: “A paz que eles não terão. Não há mais nada a perder, senão as nossas correntes.” Mais uma vez, não estamos diante de versos que passam despercebidos. São frases combativas, quase revolucionárias, que parecem convidar quem escuta a romper com aquilo que aprisiona. É impossível não sentir a força desse momento.
Musicalmente, a faixa também impressiona pela capacidade de unir diferentes universos. O metalcore aparece com enorme presença, mas continua convivendo com as atmosferas densas do post-metal, com as texturas do shoegaze e com a escuridão herdada do black metal. O resultado não soa como uma soma de referências, mas como uma identidade completamente própria. Existe caos, existe ruído e existe beleza convivendo ao mesmo tempo.
Talvez seja exatamente essa mistura que torne o Oneance um dos projetos mais interessantes da música pesada independente brasileira hoje. Enquanto muitos artistas escolhem um único caminho, A. constrói pontes entre estilos diferentes sem perder a coerência. Tudo parece fazer parte da mesma narrativa, do mesmo universo artístico.
Também chama a atenção a produção da faixa. Saber que todo esse trabalho de composição, performance, mixagem e masterização nasce das mãos do próprio artista faz a experiência ganhar ainda mais valor. Existe um cuidado minucioso em cada camada da música, permitindo que a brutalidade conviva com momentos de profundidade quase cinematográfica.
Nós saímos dessa audição com exatamente a sensação que mais gostamos de encontrar quando escutamos música: a de ter descoberto algo que continua ecoando muito depois que o último acorde termina. “Auri Sacra Fames” não é apenas um single pesado. É um manifesto sonoro construído por alguém que entende que música também pode ser filosofia, resistência e arte.
O Oneance continua provando, lançamento após lançamento, que não existe necessidade de seguir fórmulas para criar algo memorável. Basta coragem para transformar inquietações em som. E, definitivamente, “Auri Sacra Fames” faz isso de forma extraordinária.



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