Tem artistas que conseguem, com o primeiro segundo de som, te fazer entender que você vai entrar em um mundo fantástico, sonhante. E foi exatamente isso que aconteceu conosco escutando “Lá Fora”, primeiro single solo de Ste A Viva.
A artista conseguiu criar algo mágico, algo sensacional, algo realmente bonito. Não apenas por causa das letras, mas também pela escolha dos arranjos, pelas atmosferas, pelos silêncios, pelos momentos em que a música parece respirar junto com quem está escutando.
Existe uma sensação muito rara dentro de “Lá Fora”. Como se a música não quisesse apenas ser ouvida, mas sentida emocionalmente em todas as pequenas partes do corpo. É quase impossível escutar essa faixa sem imaginar paisagens, luz entrando pela janela, vento atravessando cortinas e aquela sensação silenciosa de deslocamento interno que tantas pessoas carregam sem conseguir explicar.
E talvez seja justamente aí que mora a força absurda da Ste A Viva.
Porque ela transforma melancolia em arte sensorial.
Natural de Belém do Pará e radicada em Belo Horizonte, Ste abre sua carreira solo criando um universo extremamente delicado entre indie experimental, canção contemplativa e ambientações etéreas. Mas o mais bonito é perceber que nada aqui soa artificialmente sofisticado. Tudo parece profundamente humano.

A música inteira trabalha esse contraste entre o externo e o interno. O mundo lá fora continua bonito, vivo, funcionando normalmente, enquanto por dentro existe uma desconexão difícil de traduzir em palavras. E a maneira como ela transforma isso em som é impressionante.
Tem um trecho que diz:
“se você me perguntar o que eu quero aprender (a fazer) / da varanda ver a grama e nela me dissolver”.
E honestamente? Isso resume perfeitamente a experiência de escutar “Lá Fora”. Porque existe uma vontade constante de dissolução dentro da música. Não uma dissolução triste ou desesperada, mas quase contemplativa. Como alguém que observa o mundo de longe tentando encontrar um jeito de finalmente pertencer a ele.
Nós da Divergent Beats sentimos muito essa dualidade enquanto escutávamos a faixa. Existe algo de Florence + The Machine nas explosões emocionais silenciosas que a música cria, algo de Blood Orange na textura emocional e minimalista dos arranjos, mas tudo atravessado por uma personalidade completamente brasileira, extremamente íntima e muito própria.
E isso é importante dizer: Ste A Viva não soa como cópia de referências. Pelo contrário. Ela absorve referências artísticas e transforma tudo em uma identidade muito particular.
As influências citadas pela própria artista ajudam a entender esse universo. Há ecos da densidade etérea de Grouper, da espiritualidade emocional de “Something Holy”, da construção estética de Weyes Blood e também de um cinema experimental profundamente subjetivo. O projeto dialoga com Persona, de Ingmar Bergman, especialmente nessa relação entre presença e ausência, identidade e fragmentação emocional. Além disso, existe também um diálogo muito bonito com Maya Deren e Lenora de Barros, trazendo corpo, linguagem e dissolução estética para dentro da música.
E tudo isso aparece de maneira muito orgânica.
Nada parece excessivamente pensado para impressionar. Pelo contrário. “Lá Fora” funciona justamente porque existe vulnerabilidade real dentro dela.
A voz de Ste é um dos elementos mais fortes da faixa. Existe uma delicadeza quase suspensa na maneira como ela canta, como se cada frase estivesse tentando tocar alguma memória emocional escondida dentro do ouvinte. Em muitos momentos, a interpretação parece mais uma confissão silenciosa do que uma performance tradicional. E isso deixa tudo ainda mais íntimo.
A produção assinada por Lucas De Moro também merece enorme destaque. Os synths, órgão, baixo, bateria e glockenspiel criam uma ambientação extremamente cinematográfica sem perder leveza. Existe espaço entre os sons. Existe ar. Existe silêncio. E isso faz toda diferença numa música construída justamente sobre sensação e contemplação.

Outro ponto muito bonito do projeto é como a parte visual conversa diretamente com a música. As imagens e o visualizer realizados por Anna Chaves ampliam ainda mais esse sentimento de fragmentação emocional e beleza contemplativa. É aquele tipo de projeto onde som e imagem realmente coexistem como parte da mesma experiência artística.
E talvez seja exatamente isso que torna Ste A Viva tão especial logo na estreia. Ela entende arte como experiência completa.
Além da carreira musical, Ste também atua como médica formada pela UFMG e integra a banda belo-horizontina godofredo nos synths. E existe algo muito interessante nessa coexistência entre ciência, sensibilidade e criação artística. Talvez porque “Lá Fora” pareça justamente nascer de alguém que observa emoções humanas com profundidade.
A sensação final que fica é muito forte.
Porque “Lá Fora” não tenta entregar respostas. Ela apenas cria um espaço emocional onde vulnerabilidade, beleza, melancolia e não pertencimento conseguem existir juntos sem precisar se explicar o tempo inteiro.
E honestamente? Em tempos onde tanta música parece feita apenas para passar rápido pelos ouvidos, encontrar uma artista que cria algo tão sensorial, tão humano e tão poeticamente delicado é uma das coisas mais bonitas que poderiam acontecer.



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