Ouvir o projeto da Virgulados não é simplesmente escutar um disco.
É entrar em movimento.
Desde o primeiro ato, fica claro que essa história precisava ser contada como travessia. Não por conceito, mas por necessidade. Em O Trem de Belo Jardim, a banda parte — literalmente e simbolicamente — do seu território, da sua cidade, da sua memória. O som avança como quem observa paisagens pela janela: poesia falada, guitarras, ritmos que carregam as raízes de Pernambuco e, ao mesmo tempo, dialogam com o agora.
No segundo ato, Destino(s), o caminho deixa de ser previsível. As rotas se cruzam, os sentidos se multiplicam, e a viagem ganha instabilidade. Aqui, a Virgulados parece entender que crescer também é perder o controle do trajeto. Que nem todo deslocamento é confortável — mas todo deslocamento transforma.
E então vem Autorretrato, o terceiro e último ato. O retorno. Mas não um retorno ingênuo. O trem volta ao ponto de partida carregando marcas, perguntas e cicatrizes. Com apenas três faixas — Autorretrato, Ataques e Diário de Bordo —, a banda sintetiza tudo o que foi vivido ao longo do percurso. A participação de PRKILLA amplia ainda mais o diálogo entre poesia, palavra urbana e crítica, reforçando que essa jornada também é coletiva.
O que atravessa os três atos é algo raro: a poesia como eixo central, não como ornamento. Cada verso é pensado para tocar, para ficar, para circular dentro de quem escuta. Ao mesmo tempo, não há faixa que permita passividade. O corpo responde. A guitarra puxa, a bateria empurra, a voz conduz. É impossível ouvir sem se mover — como se o ouvinte também estivesse dentro desse trem, atravessando cidades, lembranças e estados de espírito.
A Virgulados consegue unir duas forças que raramente caminham juntas: densidade poética e pulsação física. Memória e movimento. Raiz e deslocamento. O resultado é um projeto que fala não só de um lugar, mas de uma geração inteira que tenta entender de onde veio — e para onde está indo.
Conversamos com a Virgulados sobre essa travessia em três atos, sobre poesia, território, corpo, retorno e tudo o que muda quando a viagem finalmente termina.
A seguir, você confere a entrevista completa.
Vocês escolheram contar esse disco como uma viagem em atos — partida, travessia e retorno. Em que momento vocês perceberam que essa história não cabia em um álbum tradicional, mas precisava ser vivida aos poucos, como um deslocamento real?
Virgulados: O processo de gravação do disco aconteceu de forma muito espontânea, natural e sem um “tempo determinado”. Primeiro, tivemos toda a burocracia para conseguir o incentivo do Funcultura PE para realizar a gravação. Todos os músicos da banda possuem outras atividades profissionais, o que acaba sendo um desafio pra gente se reunir e gravar.
A gravação aconteceu entre 2022 e 2024 justamente por questões de tempo e agenda dos músicos da banda e do produtor Benke, que também tem uma agenda muito movimentada com os Boogarins. A ideia de lançar o disco em atos veio depois do disco gravado e mixado, pronto pra lançar. Como estávamos há muito tempo sem lançar nada, esse disco foi quase como a nossa entrada ou nosso retorno à cena musical. Diante disso, pensamos que lançar o disco todo de uma vez só não seria a melhor estratégia.
A gente precisava lançar as músicas de forma espaçada para que as pessoas pudessem ir conhecendo e acompanhando o trabalho. Então, lançar em 3 atos surgiu como uma estratégia de ir chegando aos poucos, fazer com que as pessoas ouvissem todas as músicas. Também permitiu que a gente passasse 6 meses lançando músicas, o que movimentou bastante a página da banda no Instagram, as plataformas de música e também a nossa presença na imprensa no geral. E aí tudo casou com a narrativa do disco, a viagem, os atos, como “estações” onde o trem passava.
A poesia é o eixo central de tudo o que vocês fazem. Não como adorno, mas como estrutura. O que a poesia permite dizer — ou sentir — que a música sozinha talvez não desse conta?
Virgulados: A poesia vem antes da música. O nosso vocalista David Birigui possui uma carreira consolidada como poeta e escritor, reconhecido nacionalmente por este trabalho. A banda surgiu de um recital de poesia criado pelos irmãos Biriguy e Gledson Lamartine.
A poesia sempre esteve muito presente na performance na banda e depois no disco, tanto a poesia falada como poema recitado, como a poesia em forma de música cantada. Acho que não é sobre a poesia dar conta de algo que a música não consegue, pelo contrário, é justamente a soma dessa poesia forte com a musicalidade da banda que caracteriza a estética sonora do grupo. Os músicos Gledson Lamartine, Eduardo Albuquerque e Heligeison Feitosa formam uma banda de rock instrumental chamada Mago Trio.
Eles possuem uma musicalidade ímpar não só dentro mas fora da banda tb. Então o Virgulados é essa musicalidade original do Mago Trio com a poesia de David Biriguy.
Em “O Trem de Belo Jardim”, o movimento é de saída: observar, partir, atravessar paisagens. O que vocês precisavam deixar para trás naquele primeiro ato para que essa viagem pudesse começar de verdade?
Virgulados: Para falar sobre o Trem de Belo Jardim, devo antes mencionar de onde vem esse Trem. Essa música é originalmente uma música popular de Coco de Roda cantada pela mestra Zefinha de Bernardo, uma mestra de cultura popular da nossa cidade Belo Jardim. Ela conta que essa música na verdade é de seu pai, Zé Bernardo, falecido no século passado. Essa música deve ter pelo menos meio século de existência e marca um tempo remoto onde um trem atravessava a nossa cidade, quando este era o maior meio de transporte disponível.
A ideia de gravar esta música, com consentimento e anuência de dona Zefinha, foi criar esse diálogo entre a música contemporânea e a música popular tradicional. Trazer uma música ancestral para o nosso disco que carrega marcas do tempo, da memória e da ancestralidade da nossa cidade. Esse movimento de saída, na verdade, não acontece com o objetivo de deixar algo para trás, e sim olhar para trás para poder olhar para frente. Revisitar o passado para enxergar o futuro. Já dizia Chico Science “mordernizar o passado, é uma evolução musical”.

“Destino(s)” soa como o momento mais instável da jornada — cruzamentos, encontros, desencontros, mudanças de rota. Esse segundo ato reflete mais o mundo ao redor de vocês ou as transformações internas que aconteceram ao longo do caminho?
Virgulados: Destinos para nós é o momento de diálogo com o mundo, com o interior, com as possibilidades de criar e de existir. É o momento existencialista e espiritual do disco. As músicas também trazem essa sensação de nostalgia, de diálogo com a existência, a espiritualidade. É o momento “mais calmo” do álbum e mais reflexivo tbm. Acho que é um pouco das duas coisas.
No terceiro ato, “Autorretrato”, o trem retorna à origem — mas claramente não é o mesmo ponto de partida. O que mudou em vocês depois dessa travessia? O que ficou impossível de ignorar depois de voltar?
Virgulados: A gente retorna à origem com a participação de um dos melhores rappers de pernambuco (e porque não do Brasil) da atualidade: Prkilla. O nosso disco traz o nosso território e nossa visão de mundo em diversas perspectivas. Não perspectivas convencionais, clichês e óbvias. Mas é a nossa forma de cantar o nosso lugar. Esse retorno é como dizer: a nossa música vai rodar o mundo sem tirar os pés fincados na nossa terra, no Agreste, região de Pernambuco onde vivemos. Acho que depois dessa viagem a gente começa a entender mais sobre o disco que produzimos. A gente faz e lança. Mas as percepções vão chegando no decorrer da viagem. Acho que a gente começa ter noção do trabalho que produzimos depois que ele chega nas pessoas.
A faixa “Diário de Bordo” parece funcionar como um fechamento íntimo, quase confessional, como quem escreve para não esquecer. O que precisava ser registrado ali antes que essa viagem chegasse ao fim?
Virgulados: Essa faixa traz um sentimento muito de fechamento, encerramento, e talvez por isso esteja neste lugar no álbum. É como se a gente registrasse ali o sentimento após a trajetória do disco. Acho que essa música diz: a gente chegou aqui e não iremos parar. Acho que registra nossa vontade de ir além e continuar fazendo música. Não é um fim. É uma pausa.
Há algo muito forte no fato de, em todas as faixas, a poesia coexistir com o movimento do corpo — é impossível ouvir sem querer se mexer, dançar, seguir o ritmo. Para vocês, esse corpo em movimento também faz parte da narrativa dessa geração e desse território?
Virgulados: Sim. A musicalidade solar, dançante, “pra cima”, é algo que a gente vem trabalhando nas músicas. A gente queria criar um álbum que tivesse várias texturas e estéticas também. Então vão ter músicas mais contemplativas e menos dançantes, mas a maioria das músicas tem esse “suingue” que a gente gosta de trazer também para a performance. A gente canta, toca, dançando, se movimentando, sentindo a música. Acho que isso agrega muito tanto no disco como na performance ao vivo.
Para quem vai entrar agora nesse trem pela Divergent Beats — leitores que vivem entre memória, identidade, deslocamento e vontade de pertencer — que tipo de marca vocês gostariam que essa viagem deixasse depois do último ato?
Virgulados: A gente gostaria que o nosso disco chegasse nos ouvidos certos. A gente tem noção da dimensão do trabalho, criamos a nossa estética. Precisamos chegar nos ouvidos e nos palcos onde nossa música seria bem recebida. Não tocamos nesse assunto durante a entrevista, mas talvez esse final seja apropriado pra isso. Existe uma indústria que fabrica artistas e determina quem ou não faz “sucesso” ou toca nos festivais. Estamos geograficamente em desvantagem: em Pernambuco, estamos no interior, não estamos em Recife onde tudo acontece e qualquer artista mediano com contatos e influência consegue emplacar seu trabalho e tocar nos eventos e festivais.
No Brasil, não estamos no eixo RJ/SP onde se concentra o maior mercado para o tipo de música que fazemos. Então a ideia que a gente deixa é essa: entramos no game e seguimos em busca do nosso lugar ao sol. Não importa quanto tempo leve, o quanto tenhamos que trabalhar. Seguiremos produzindo, gravando e lançando. E como diz a primeira estrofe do Trem:
“Biriguy chegou agora
Pra cantar aquele verso
Se vocês não abrir a porta
Eu arrombo e quebro o teto.”



Deixe uma resposta