Não existe nada mais divertido na música do que quando personagens aparentemente comuns conseguem contar uma história enorme sobre o mundo em que vivemos. E foi exatamente isso que sentimos escutando “Crazy or Stupid”, novo single do Late Again.
À primeira audição, a música conquista pela leveza. É aquele dream pop ensolarado que faz seu corpo começar a acompanhar a batida quase sem perceber. Existe algo que lembra artistas como Troye Sivan na delicadeza da produção e na forma como a melodia parece flutuar. Mas basta prestar um pouco mais de atenção para perceber que por trás desse som extremamente agradável existe uma crítica inteligente, divertida e surpreendentemente honesta sobre o caos cotidiano em que todos nós estamos vivendo.
Late Again é o projeto do brasileiro Rafael Melo, artista multimídia nascido no litoral de São Paulo e atualmente radicado no Brooklyn, em Nova York. Desde a estreia do projeto, em 2024, ele vem construindo uma identidade muito própria dentro do dream pop, misturando a sensibilidade melódica brasileira com a ironia e o ritmo acelerado da vida nova-iorquina.
Essa combinação já levou seus EPs a ultrapassarem a marca de dois milhões de ouvintes no Spotify, além de apresentações lotadas na Costa Leste dos Estados Unidos e colaborações com nomes importantes como Arthur Verocai e o artista visual Gabriel Rollinos. Tudo isso ajuda a explicar por que Late Again vem sendo apontado como um dos projetos mais interessantes dessa nova geração de artistas brasileiros que dialogam naturalmente com o cenário internacional.
“Crazy or Stupid” dá continuidade ao universo apresentado anteriormente em “If You Have A Bridge (I’m Buying)”, antecipando o EP I Dreamt I Was Awake. Mas aqui Rafael decide olhar para o mundo de uma forma ainda mais divertida.
O ponto de partida parece simples: contas atrasadas, vizinhos barulhentos, redes sociais completamente dominadas por teorias da conspiração, inteligência artificial produzindo absurdos e aquela sensação permanente de que ninguém mais sabe exatamente o que está acontecendo. Só que, em vez de transformar tudo isso em um discurso pesado, ele escolhe o humor como ferramenta para observar essa realidade.
E funciona perfeitamente.
Um dos grandes acertos da música é justamente apresentar personagens como Brad, Fred, Greg e Jed quase como símbolos de uma sociedade completamente perdida entre informação, entretenimento e delírio coletivo. Enquanto ouvíamos a faixa, tivemos a sensação de estar acompanhando pequenas cenas de um filme onde todos parecem um pouco confusos, mas continuam vivendo normalmente, como se esse caos fosse apenas mais uma terça-feira qualquer.
O refrão é simplesmente brilhante.
“Everybody’s crazy or stupid… Which one are you, Brad?”
Poucos segundos depois vem outra sequência que ficou completamente presa na nossa cabeça:
“Everybody’s crazy or stupid, just spin the wheel, Greg.”
“I pick crazy over stupid, just never the two, Fred.”
É impossível não sorrir enquanto escuta. Existe uma ironia muito bem construída, mas nunca agressiva. Late Again não aponta o dedo para ninguém. Pelo contrário, ele parece admitir que todos nós fazemos parte desse enorme jogo de confusões modernas. Em algum momento somos Brad. Em outro somos Greg. Talvez sejamos Fred. Talvez sejamos todos ao mesmo tempo.
Essa talvez seja a maior qualidade da composição.
Ela faz rir.
Mas também faz pensar.
A produção acompanha perfeitamente essa proposta. Os sintetizadores delicados, a bateria discreta e as guitarras extremamente leves criam aquela atmosfera acolhedora típica do dream pop, enquanto a voz de Rafael conduz tudo de maneira quase conversada. É uma música extremamente fácil de ouvir, mas que continua revelando novos detalhes a cada audição. Quanto mais você presta atenção na letra, mais percebe o quanto ela conversa diretamente com a experiência contemporânea.
Na Divergent Beats sempre falamos sobre artistas que conseguem transformar acontecimentos aparentemente pequenos em grandes reflexões. Late Again faz exatamente isso. Ele pega situações extremamente comuns — esquecer uma conta, encontrar uma teoria absurda na internet, ouvir um vizinho gritando, perceber que ninguém mais sabe distinguir realidade e ficção — e constrói uma narrativa que representa uma geração inteira tentando sobreviver ao excesso de informação.
Talvez por isso “Crazy or Stupid” funcione tão bem.
Ela não tenta oferecer respostas.
Ela apenas observa.
E observar o mundo com humor, sem perder a sensibilidade, talvez seja uma das coisas mais difíceis de fazer hoje.
Também gostamos muito da forma como Rafael transforma sua experiência como brasileiro vivendo em Nova York em combustível criativo. Existe uma identidade muito forte atravessando todas as suas músicas. Mesmo dialogando com referências como Gorillaz, Tame Impala, Mac DeMarco, Men I Trust, The Marías, Still Woozy, Caetano Veloso e Ryuichi Sakamoto, Late Again nunca parece uma cópia de ninguém. Pelo contrário, ele encontra um espaço muito próprio onde o indie brasileiro e a música alternativa internacional convivem naturalmente.

“Crazy or Stupid” confirma exatamente isso. É divertida, inteligente, extremamente bem produzida e cheia de personalidade. Daquelas músicas que você coloca para tocar por causa da melodia e continua escutando porque, de repente, percebe que ela está dizendo muito mais do que parecia no começo.
Nós, da Divergent Beats, adoramos esse lançamento. É um single que faz você balançar a cabeça, sorrir com a ironia dos versos e, alguns minutos depois, se perguntar se realmente estamos vivendo num mundo onde todo mundo é louco, estúpido… ou um pouco dos dois.



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