Bastante vezes a gente compartilhou os singles de Gabo Islaz que anteciparam o álbum Do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração, e a gente já tinha amado o som do Gabo Islaz porque é um som muito diferente. É um som que te conta algo. Não é apenas música acontecendo dentro do fone de ouvido. Existem narrativa, textura emocional, imagens, cheiros, ruas, lembranças e pequenos detalhes da vida colocados dentro das canções. E agora finalmente chegou o álbum completo, que é realmente uma viagem inteira para dentro do mundo do Gabo Islaz.

Todas as faixas parecem abrir uma porta diferente.

É como se cada música pegasse você pela mão e colocasse dentro dessa decisão artística muito corajosa de fazer algo completamente alternativo, extremamente íntimo, mas ao mesmo tempo muito conectado às próprias raízes. Existe algo muito humano no modo como ele escreve e organiza emoções dentro da música. Nada aqui parece distante do mundo real. Pelo contrário. O álbum inteiro parece nascer justamente da tentativa de entender o mundo através da memória, dos afetos e da observação dos pequenos detalhes da vida.

E isso torna tudo ainda mais bonito.

A primeira faixa, “Solzinho”, já deixa isso muito claro logo nos primeiros segundos. Quando Gabo canta:

“saudade do cheiro da rua, meu peito invade a janela, o vento inventa os pássaros”

você já entende imediatamente que entrou dentro de um universo muito particular. Um universo quase cinematográfico. E depois, quando ele continua dizendo:

“quem dera um sol de domingo, doçura acalmante das feras”

tudo ganha ainda mais profundidade emocional.

O modo como Gabo Islaz coloca as palavras dentro da música é pura poesia.

Existe uma delicadeza absurda em tudo. As canções parecem respirar. Parecem existir num tempo diferente, mais lento, mais observador, mais sensível. E talvez seja justamente isso que faz Do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração ser tão especial: ele não tenta impressionar pelo excesso. Ele impressiona pela sinceridade.

É um álbum construído entre 2023 e 2025 de maneira completamente orgânica, acompanhando os caminhos da própria vida do artista. Gravado entre Porto Alegre, Santa Fe, Buenos Aires e Tunja, o disco carrega literalmente as marcas do deslocamento, das amizades, das cidades, dos quartos, corredores, salas e improvisos que participaram desse processo.

E isso aparece no som.

Existe uma estética extremamente artesanal em tudo aquilo que o Gabo cria aqui. Algumas gravações nasceram com celular, outras com microfones modestos, algumas dentro do guarda-roupa, outras em estúdios, salas de aula ou espaços improvisados. Mas ao invés disso diminuir o álbum, acaba fazendo exatamente o contrário: transforma tudo em algo ainda mais humano.

Porque você sente a presença da vida dentro dessas músicas.

Também é muito bonito perceber como o álbum inteiro carrega a importância das amizades e da coletividade. O próprio Gabo fala sobre isso quando agradece às pessoas que seguraram sua mão em vários momentos e deram força para que ele continuasse fazendo aquilo que ama. E essa energia atravessa completamente o disco. Mesmo sendo um álbum extremamente íntimo, ele nunca soa sozinho.

Existe calor humano aqui.

Existe pertencimento.

Gabo Islaz, artista indie de Porto Alegre nascido em 1997, já vinha chamando atenção desde o EP Bicicleta Sem Rodinha lançado em 2021 pela Living Waters Records, de Nova Iorque, em formato digital e vinil lathe-cut. Agora, nesse primeiro álbum lançado pela Chupa Manga Records, ele parece encontrar ainda mais clareza artística sobre aquilo que quer construir musicalmente.

E o resultado é impressionante.

Musicalmente, o disco atravessa indie, folk alternativo, experimentação lo-fi e canção brasileira de uma forma muito natural. Mas mais do que pensar em gênero, o que realmente importa aqui é a atmosfera. Porque Do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração funciona quase como uma coleção de memórias emocionais organizadas em música.

Você não escuta esse álbum apenas com os ouvidos.

Você entra nele.

Tem momentos em que parece que você está caminhando sozinho numa rua vazia no fim da tarde. Outros em que tudo soa como uma lembrança distante da infância. Em alguns instantes o álbum parece abraço. Em outros, parece saudade pura.

E isso é extremamente raro.

Num momento onde tanta música parece feita para passar rápido, Gabo Islaz cria um trabalho que pede exatamente o contrário: parar, respirar e sentir.

É um álbum sobre memória, mas também sobre permanência.

Sobre aquilo que continua vivendo dentro da gente mesmo depois que tudo muda.



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