A gente já falou de Oneance aqui na Divergent Beats quando escutamos o EP Oneance (leia aqui), um trabalho que consideramos um dos lançamentos mais bonitos e surpreendentes de 2026. Naquele momento, já estava claro que existia algo muito especial acontecendo dentro desse projeto. Não apenas pela sonoridade, mas pela forma como cada música parecia abrir uma porta para um universo próprio, cheio de peso, atmosfera e reflexão.
Agora, Oneance chega com um novo single, “Saliva”, e a sensação é de confirmação.
Confirmação de que estamos diante de um artista que entende a música como experiência. Como imersão. Como algo que precisa ser sentido antes mesmo de ser compreendido.
“Saliva” começa forte. As guitarras entram como uma tempestade anunciada. Os vocais surgem carregados de intensidade. O peso do metal encontra texturas que parecem se expandir para muito além das caixas de som. E, ao mesmo tempo, existe uma estranha beleza em tudo isso.
Porque Oneance nunca utiliza o peso apenas pelo peso. Existe propósito. Existe construção. Existe narrativa.
A cada segundo da faixa, a sensação é de estar caminhando por um território desconhecido. Você não sabe exatamente para onde a música vai levar, mas continua seguindo porque existe algo magnético naquela jornada. É uma experiência que mistura impacto físico e contemplação emocional, algo que poucos artistas conseguem alcançar com tanta naturalidade.
E talvez seja justamente aí que mora a força de Oneance.
Formado em Brasília em 2016, o projeto é conduzido integralmente por A., artista que opta pelo anonimato e carrega sozinho todo o processo criativo. Composição, gravação, performance, produção, mixagem, masterização e administração acontecem dentro de uma filosofia profundamente DIY. Tudo nasce da mesma pessoa. Tudo passa pelas mesmas mãos.
E essa característica faz com que a música carregue uma identidade extremamente singular.
As influências de shoegaze, post-metal e black metal aparecem ao longo da construção sonora, mas nunca como simples referências. Elas funcionam como ferramentas para criar algo que pertence exclusivamente ao universo de Oneance.
O próprio nome do projeto já sugere isso. Derivado de um anagrama da palavra “oceanos”, ele remete à vastidão, ao desconhecido e às profundezas. E ouvir “Saliva” é justamente como mergulhar em algo que parece não ter fundo.
As letras reforçam ainda mais essa sensação.
Oneance escreve de uma maneira que exige atenção. Não são versos feitos para passar despercebidos. São palavras que pedem escuta, reflexão e entrega. Por isso, nossa maior recomendação é simples: coloque os fones de ouvido, afaste as distrações e permita que a música aconteça.
Porque existem momentos realmente impressionantes.
Quando ouvimos versos como: “capítulo do ter mistério do existir, que chora sem porquê e sem motivo ri”, imediatamente somos transportados para um território que vai muito além da música pesada. Existe filosofia. Existe questionamento. Existe humanidade.
E quando surge “o espasmo vem da brisa, caótico disperso e guia a rebaldia pelo vão do universo”, a sensação é de estar diante de uma obra que transforma linguagem em paisagem emocional.
São imagens que permanecem.
São versos que continuam ecoando muito depois do fim da música.
É exatamente esse tipo de escrita que produz aquele raro efeito de surpresa que tanto procuramos na arte. Aquele momento em que uma música consegue interromper o fluxo automático do dia e fazer você simplesmente parar para sentir.
Oneance continua sendo um dos projetos mais interessantes da música pesada brasileira contemporânea justamente porque não se limita aos rótulos. Existe metal aqui. Existe agressividade. Existe densidade. Mas existe também sensibilidade, contemplação e uma busca constante por significado.
“Saliva” não é apenas um novo single.
É mais um capítulo de um artista que segue expandindo seu próprio universo criativo e mostrando que peso e poesia podem caminhar juntos de forma absolutamente extraordinária.



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