São realmente poucos os artistas que conseguem, com uma música e com palavras completamente pegadas na realidade, fazer você sentir que pertence àquele lugar. E foi exatamente isso que aconteceu escutando Centro Parque, novo single do projeto Caneco Quente, criado pelo músico e artista visual mineiro Pedro Hamdan.

Nós, da Divergent Beats, não escutamos apenas uma faixa. Vivemos uma poesia urbana, uma cinematografia sonora construída com memórias, vozes, texturas e detalhes tão humanos que, em poucos minutos, você se sente sentado dentro do Parque Municipal de Belo Horizonte observando a cidade respirar ao seu redor.

É uma experiência absurda.

Basta apagar a luz, colocar o fone e deixar a música entrar. Aos poucos, você começa a ouvir as vozes, os passos, os pássaros, os ruídos da cidade, as sirenes, as conversas atravessando o ambiente e, quando percebe, já não consegue mais distinguir onde termina a música e começa a própria vida acontecendo. Centro Parque cria esse espaço liminar maravilhoso entre realidade e arte. É uma faixa que não quer apenas ser escutada. Ela quer ser habitada.

Pedro Hamdan constrói tudo isso a partir de uma observação extremamente sensível da cidade. Sempre que anda pelo centro de Belo Horizonte — ou “na Cidade”, como diriam as mães mineiras dos anos 80 — ele entra no Parque Municipal Américo Renné Giannetti para observar pessoas, fotografar cenas cotidianas e imaginar as histórias escondidas por trás de cada rosto. Funcionários do parque, crianças, frequentadores ocasionais, trabalhadores atravessando o espaço entre avenidas movimentadas… tudo isso vai sendo absorvido e transformado em matéria emocional.

E talvez seja justamente isso que faz Centro Parque ser tão especial.

A música não romantiza o cotidiano. Ela simplesmente o escuta.

Os depoimentos de Íris, Lúcia, Nila, Eike, Fernando, Renan, Edimilson e Raimundo aparecem misturados a sintetizadores, programações eletrônicas, ruídos urbanos, percussões e os violões lindíssimos de Bernardo Bauer. Em vários momentos, você realmente perde a capacidade de entender o que é passarinho e o que é ambulância. O que é natureza e o que é concreto. E essa escolha estética transforma a faixa em algo extremamente contemporâneo, porque fala justamente sobre viver dentro dessa colisão constante entre o caos urbano e a tentativa de encontrar pequenos refúgios emocionais.

Nós amamos profundamente isso.

Existe algo muito cinematográfico em Centro Parque. Enquanto escutávamos, parecia que imagens surgiam automaticamente na cabeça. O carrossel antigo girando lentamente, crianças correndo, alguém sentado sozinho olhando o movimento, o vento atravessando árvores enquanto a cidade continua acelerada do lado de fora. E ao mesmo tempo tudo soa muito íntimo, quase como um diário sonoro compartilhado silenciosamente com quem escuta.

Musicalmente, Caneco Quente também consegue criar uma identidade muito própria. Você percebe ecos de nomes como The Books, Panda Bear e DJ Koze, mas tudo passa por uma filtragem extremamente brasileira, artesanal e afetiva. Não existe excesso. Não existe artificialidade. Existe textura humana. Existe cuidado em cada detalhe sonoro. É música eletrônica feita com coração pulsando.

E entender quem é Pedro Hamdan torna tudo ainda mais bonito.

Natural de Belo Horizonte, ele já atravessa há décadas a música independente brasileira participando de projetos importantes como Transmissor, Moons, Congo Congo, Sítio Rosa e Desastros. Antes disso, passou pelos anos 2000 com o trio instrumental mordeorabo e também construiu uma trajetória gigantesca como artista visual, fotógrafo, ilustrador e autor de publicações infantojuvenis e fotolivros.

Mas o Caneco Quente nasce justamente como um espaço de liberdade criativa. Um projeto onde um baterista decidiu cantar, experimentar colagens sonoras, misturar eletrônica, poesia, ruído e observação urbana sem precisar seguir fórmulas prontas. O primeiro álbum homônimo saiu em 2019 com participação de Gustavo Cunha, da Iconili, além da coprodução de Bruno Corrêa e Leonardo Marques. Depois, em 2021, veio o disco duplo Falta Flauta/Flauta Falta, criado durante a pandemia dentro do estúdio/refúgio Abalo Císmico.

Agora, em 2026, Centro Parque surge como continuação natural dessa trajetória experimental e emocional.

E talvez o mais bonito seja perceber como Pedro transforma observação em pertencimento. Porque mesmo quem nunca pisou no Parque Municipal de Belo Horizonte consegue se reconhecer dentro da faixa. Todo mundo conhece a sensação de procurar silêncio no meio do caos. Todo mundo conhece aquele momento raro em que uma praça, uma árvore ou um pequeno espaço verde parece salvar mentalmente um dia inteiro.

A produção da música também merece destaque enorme. Tudo foi produzido, gravado e mixado no Abalo Císmico entre julho de 2025 e abril de 2026 pelo próprio Caneco Quente, com masterização de Felipe D’Angelo no Estúdio Cais. Existe uma organicidade muito forte no som. Nada parece encaixado artificialmente. Tudo respira junto.

Nós, da Divergent Beats, falamos muito sobre música que cria sensação. Música que deixa imagem. Música que faz você parar alguns minutos e sentir alguma coisa real. Centro Parque faz exatamente isso.

É uma faixa delicada sem ser fraca. Experimental sem ser distante. Humana sem precisar exagerar emoções. Pedro Hamdan conseguiu transformar um parque em memória sonora coletiva.

E sinceramente? Isso é arte no estado mais bonito possível.



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