Dessa vez a história começa diferente. Normalmente, nós da Divergent Beats passamos horas — dias — pesquisando música, mergulhando em playlists, explorando artistas novos, revisitando nomes antigos, tentando encontrar aquilo que faz a gente parar tudo e dizer “isso aqui precisa ser escrito”. Claro, chegam press kits, chegam emails, chegam mensagens, mas muita coisa nasce da nossa própria busca.
E com o Shitiago foi exatamente isso que aconteceu: a gente escutou o EP “NOTURNO” cedo, muito cedo, no dia do lançamento, colocamos imediatamente no nosso calendário como algo que precisava virar artigo… e algumas horas depois chega uma mensagem dele, com o projeto, com as ideias, com o coração aberto ali. E a gente só conseguiu pensar uma coisa: é isso. É isso que a Divergent Beats é. Conexão real.
Mas vamos falar do EP.
“NOTURNO” são seis faixas, dezesseis minutos, e mesmo sendo curto, é daqueles trabalhos que te atravessam inteiro. Não existe um segundo que parece jogado, não existe uma ideia que parece ali por acaso. Tudo tem intenção, tudo tem textura, tudo tem vida.
E antes de qualquer coisa, a gente precisa falar do significado desse nome, porque ele já diz muito: não é um EP sobre a noite, é um EP feito na noite. Feito na madrugada, no silêncio, no cansaço de quem sai de um turno, de quem vive a vida CLT enquanto o mundo dorme e mesmo assim encontra energia para criar. E isso muda tudo. Porque você não está só ouvindo música, você está ouvindo o resultado de horas invisíveis, de um processo solitário, de alguém que decidiu não desistir.
Shitiago, artista de Londrina, não é só músico. É ilustrador, colagista, produtor, alguém que vive arte em múltiplas formas e que claramente não quer — e não precisa — caber em nenhuma definição. A música dele reflete isso completamente.
É house, é trip-hop, é ambient, é indie, é experimental, é trap, é nu metal, é lo-fi… mas ao mesmo tempo não é nada disso isoladamente. É ele. É uma colagem sonora que funciona porque vem de um lugar verdadeiro, de alguém que entende textura, contraste, sobreposição, silêncio e impacto.
E esse EP é isso: um corpo de trabalho emocionalmente carregado, cheio de frustração, de reflexão, de delírio noturno, mas também de força.
A gente gostou de todas as faixas, todas mesmo, mas tem duas que bateram de um jeito diferente.
“Revolta” é uma delas, e ali você sente tudo explodindo. Quando ele diz;
“olha no meu olho, não toca na minha mão, cultivando o ódio dentro do meu coração”,
não é só uma frase, é um estado. E quando continua:
“vou vencer no grito pra deixar de ser peão, sai na minha frente que eu não tenho educação”,
você entende que isso aqui não é estética, não é pose, é vivência. É alguém que já cansou de engolir e agora está colocando tudo pra fora. É forte, é direto, é necessário.
E depois vem “Olho Vivo, Faro Fino”, que pra gente é outro momento absurdo do EP. Quando ele fala:
“meu instinto trabalhando, mente e coração, sangue gelado é com que se faz revolução”,
é como se estivesse resumindo tudo. Sobre sobreviver, sobre aprender, sobre se manter firme mesmo quando tudo em volta tenta te desmontar. É verdade pura.
E é isso que faz “NOTURNO” ser tão importante.

Não é só a sonoridade bem construída, não é só a mistura de referências, não é só a estética bonita. É o fato de que existe uma pessoa ali dentro, inteira, colocando o que viveu, o que sentiu, o que pensou, o que segurou e o que decidiu finalmente soltar.
Pra gente da Divergent Beats, esse EP não é só um lançamento. É um pedaço de vida.
E num cenário onde muita coisa parece feita pra agradar algoritmo, encontrar um trabalho assim, cru, honesto, construído na madrugada, com verdade, com identidade…é raro.
E quando é raro assim…a gente escreve.



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