Dessa vez, a Divergent Beats não vai falar de um artista independente brasileiro. E isso, por si só, já diz muito. Porque quando um artista independente venezuelano decide olhar para o Brasil — mais especificamente para as raízes da bossa nova carioca — com respeito, escuta e profundidade, a gente sente. E foi exatamente isso que aconteceu quando chegamos a Bongiovanni CG e ao seu novo álbum, Bossa Sem Tempo.

Bongiovanni não chega como alguém tentando “fazer bossa nova”. Ele chega como um músico que entende o ritmo como linguagem, como memória viva. Venezuelano-italiano, compositor, multi-instrumentista e produtor independente, ele construiu sua trajetória inteira no detalhe: compondo, gravando, arranjando e produzindo tudo a partir do próprio estúdio. Cada som ali tem intenção. Cada silêncio também.

Antes de Bossa Sem Tempo, sua caminhada passou pelo instrumental pop-rock, pelo rock & roll, por experimentações que foram, aos poucos, afinando uma voz própria. Dá pra sentir esse amadurecimento. Não é um disco apressado. É um disco de alguém que escutou muito antes de tocar.

E talvez seja por isso que Bossa Sem Tempo seja tão confortável de ouvir. É um álbum que acolhe. Um disco que pede domingo de manhã, café passado na hora, luz entrando pela janela, panela no fogo baixo. Não é música para impressionar — é música para permanecer.

A bossa nova aqui não aparece como nostalgia nem como fetiche estético. Ela surge como estrutura atemporal, como chão rítmico onde outras culturas caminham juntas. E caminham bonito. Bongiovanni transforma tradição em diálogo: Venezuela, jazz, música clássica, Caribe, tudo passa pelo filtro da bossa sem jamais desrespeitá-la.

As releituras são um capítulo à parte. Alma Llanera, hino afetivo venezuelano, ganha novos contornos sem perder sua alma. Samba da Alegria, inspirada em Duke Ellington, prova que swing e bossa sempre conversaram — só precisavam de alguém disposto a ouvir. E talvez o gesto mais ousado (e mais delicado) esteja em Adagio Sostenuto, onde Beethoven atravessa o tempo e encontra um outro pulso, outra respiração.

Mas é em “Menina da Bossa” que o disco se torna íntimo de verdade. A presença vocal não vem de um cantor convidado, nem de uma performance calculada. Vem da filha de Bongiovanni, Vincenza, improvisando um scat espontâneo, orgânico, quase infantil — e por isso mesmo profundamente humano. É ali que o álbum deixa claro: isso não é só sobre música. É sobre vida compartilhada.

Tudo em Bossa Sem Tempo soa próximo. Mesmo sendo instrumental, o disco conversa. As guitarras de nylon gravadas ao vivo, o baixo direto, a bateria construída manualmente via pads, os ruídos ambientes, os fragmentos sonoros — tudo cria um espaço de escuta que parece físico. Você sente que pode entrar nesse álbum, sentar e ficar.

A Divergent Beats sempre acreditou que música boa não tem fronteira, mas tem responsabilidade emocional. E Bossa Sem Tempo carrega isso com elegância. É bonito ver um artista de fora olhar para a música brasileira não como exotismo, mas como herança viva. Não como apropriação, mas como continuidade.

Bongiovanni CG não fez um disco de bossa nova. Ele fez um disco sobre tempo, escuta e respeito. E isso, hoje, é raro

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