Existem selos que simplesmente lançam música.E existem selos que criam universos.

A Casalago Records pertence definitivamente ao segundo grupo. Sempre que uma banda aparece carregando esse nome ao lado do seu trabalho, a gente já sabe: algo interessante está por vir. Algo que vai mexer com a nossa visão do rock alternativo brasileiro.

Foi assim quando falamos da Abissal.

E agora acontece de novo com O Velho Manco.

Formada em 2014 por Mancin (vocais, guitarra e violão), Dan (vocais, guitarra e violão) e Eddie (baixo), a banda construiu ao longo dos anos uma identidade que parece caminhar naturalmente entre mundos diferentes. Escutar O Velho Manco é atravessar uma espiral de referências onde Radiohead encontra a MPB, onde ecos de Nirvana, Chico Buarque, Queens of the Stone Age e Pink Floyd aparecem não como cópia, mas como base para algo novo — algo que soa profundamente brasileiro e ao mesmo tempo universal.

Desde o primeiro álbum, “A Mosca” (2018), o trio vem construindo uma obra que mistura letras densas e existenciais com melodias vibrantes, quase dançantes. Um contraste que eles próprios descrevem como reflexo da psique humana: cheia de antagonismos, oscilações e conflitos.

E quem acompanha a banda há algum tempo sabe disso.

Aqui na Divergent Beats, por exemplo, a gente já tinha sido completamente fisgado por “Cinemática”, especialmente pela versão ao vivo gravada no SESC Jundiaí, além da performance intensa de “Mundo Deserto” registrada no Casarão. Dois momentos que mostraram que O Velho Manco não é apenas uma banda de estúdio — é também uma banda que vive a música com intensidade no palco.

Mas agora eles chegam com algo que nos pegou de surpresa de novo.

O novo EP, “Depois?”, traz apenas duas faixas — mas duas faixas que parecem concentrar uma energia enorme.

Começando por “As Pedras”.

A música chega como o próprio nome sugere: uma pedrada sonora direta no corpo. As guitarras entram fortes, a bateria empurra a faixa para frente e existe uma tensão crescente que vai se acumulando até um momento específico, ali perto do minuto três, quando tudo explode de um jeito tão bonito e poderoso que a única reação possível é pensar: eles conseguiram de novo.

É aquele tipo de música que não apenas se escuta.Ela te pega.

E então vem “Depois?”, a faixa que dá nome ao EP — e que traz uma atmosfera completamente diferente.

Se “As Pedras” é impacto, “Depois?” é quase um abraço. Um abraço intenso, cheio de reflexão, daqueles que fazem você parar por alguns segundos e pensar sobre tudo.

E quando chega o verso:

“É um medo vazio que me encontrou,

desespero de um dia que acabou.”

o impacto é imediato.

Existe algo profundamente humano nessas palavras. Um sentimento de fim, de dúvida, de vazio que muita gente conhece bem demais. E quando essa letra encontra a sonoridade característica da banda — esse equilíbrio entre peso e sensibilidade — o resultado é simplesmente poderoso.

O Velho Manco continua fazendo exatamente aquilo que sempre fez de melhor: transformar inquietação em música.

E mais uma vez, a Casalago Records prova que sabe muito bem escolher as vozes que quer amplificar dentro da cena alternativa brasileira.

Porque quando bandas como O Velho Manco aparecem, fica claro que o rock independente brasileiro continua vivo, inquieto e cheio de coisas importantes para dizer.

E a gente aqui da Divergent Beats só consegue fazer uma coisa diante disso tudo: dar play de novo.

Instagram O Velho Manco



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