A gente fala de muitas coisas aqui na Divergent Beats. A gente fala de som, de estética, de cena, de underground, de futuro. Mas, acima de tudo, a gente fala de artistas brasileiros independentes que mudam o nosso dia — às vezes sem fazer barulho nenhum, só entrando devagar no coração.

E quando um artista que a gente confia, como se fosse um oráculo informal da cena, virou pra gente e disse “escuta a Lorrayne”, a gente já sabia: ia ser um lugar bonito. E foi.

Vamos começar pela voz.

A voz da Lorrayne não pede licença. Ela acontece. É intensa, é doce, é potente, é vulnerável. Uma voz que não interpreta personagens — ela se entrega inteira. Dá pra sentir que cada palavra cantada vem de um lugar vivido, atravessado, sentido no corpo. É aquela voz que não serve só pra cantar, serve pra contar história.

Retrogado: um acústico sem verba é exatamente isso: um álbum que não tenta esconder nada. Pelo contrário. Ele escancara. Logo na primeira faixa, “Metrópole”, Lorrayne já deixa claro onde estamos pisando.

“Eu sou a filha perdida da metrópole / não quero nada além de tudo que eu vejo / onde tudo acontece”.

Essa frase é um manifesto. Porque ao longo do álbum inteiro, você sente essa relação íntima, conflituosa e apaixonada com a cidade — especialmente São Paulo. A cidade como cenário, mas também como personagem: bela, dura, caótica, libertadora, exaustiva.

O que mais impressiona em Retrogado é a sensação física de presença. É como se Lorrayne tivesse te puxado pela mão e dito: “senta aqui comigo”. Você não só escuta as músicas — você escuta o quarto, o estúdio improvisado, o teclado sendo tocado, o ar se movendo.

Isso é raríssimo. E só poucas artistas conseguiram fazer isso com essa força. A gente pensou muito em Florence and the Machine, especialmente naquele momento cru, quase ritualístico, de Dance Fever e Everybody scream Aquela sensação de estar dentro da música, não só ouvindo.

E faz todo sentido quando você lembra do título: um acústico sem verba. Não como limitação, mas como escolha estética e política. Aqui não tem excesso, não tem verniz, não tem maquiagem sonora. O que tem é verdade.

Cada faixa parece existir porque precisava existir.

Entre todas, a que mais ficou com a gente foi “Rádio”. Especialmente quando Lorrayne canta:

“sem medo do futuro, correndo na praça”.

Isso bate forte. Porque é exatamente essa imagem que o disco constrói: a tentativa de manter alguma leveza, alguma liberdade, algum respiro — mesmo vivendo numa cidade que nunca para, nunca perdoa, nunca dorme.

Lorrayne não está só lançando músicas. Ela está construindo um espaço íntimo onde quem escuta se sente visto, acolhido, entendido.

É arte feita sem verba, mas com coragem, sensibilidade e uma identidade absurda.

E isso, pra gente, é tudo.

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