Não é a primeira vez que a capa de um álbum faz a gente parar por alguns segundos e pensar: quem é essa pessoa?

E quando o nome vem logo depois — DEZERT HORSE, com esse desert escrito com Z — a pergunta muda de tom: o que está acontecendo aqui?

Foi assim que entramos no universo de Gabriel Martins. Antes mesmo de apertar o play, já dava pra sentir que esse não era só mais um disco. DEZERT HORSE não pede atenção: ele puxa, arrasta, hipnotiza. É um álbum que te olha de volta.

Dezert Horse é daqueles artistas raros que funcionam em 360 graus. Compositor, produtor, criador de imagem, contador de histórias — tudo passa por ele. O disco, lançado em 13 de fevereiro de 2026, é o terceiro do projeto e também o mais definitivo. Homônimo, porque é exatamente isso: tudo o que é o Dezert Horse está aqui. Vida, deslocamento, interior, mudança, afeto, caos, silêncio.

São 10 faixas e 37 minutos que não passam correndo. Elas ficam. O som é incrivelmente bem construído, com uma produção limpa, quente, orgânica, que em alguns momentos lembra os começos do Tame Impala, mas só como referência distante. Porque aqui não tem nostalgia vazia — tem identidade. Tem Brasil interiorano. Tem poeira, estrada, pensamento longo.

Esse é um disco que parece ter sido canalizado, não forçado. E faz sentido saber que ele foi gravado em poucos meses, quase como se as músicas já estivessem prontas no ar, só esperando alguém virar antena.

Uma das faixas que mais nos atravessou foi “Nem Queria Ver o Fim”. Logo no começo, Gabriel solta:

“Olha como o tempo passa

não sei se começo

planos são incerteza e ilusão”

É simples, direto e devastador. Porque todo mundo que já precisou sair de um lugar — físico ou emocional — entende isso imediatamente. O disco inteiro carrega essa sensação: a de estar indo embora sem saber exatamente pra onde, mas sabendo que ficar já não é opção.

Credits Caeu Santos

Em “Silêncio Cósmico”, o álbum entra num outro plano. Quase filosófico, quase espiritual, quase vazio:

“Não tem por que falar se me ouvisse

Silêncio cósmico

não tem por que chorar

por que eu não sinto tristeza sólida”

Isso não é letra pra decorar. É letra pra sentir no corpo. É aquele tipo de música que não quer resposta, quer presença. Quer que você fique ali, parado, escutando.

E os visuais importam — e muito. A capa, as fotografias, a paleta de cores, o cavalo, a terra, o horizonte quase mítico. Nada é gratuito. Tudo ajuda a construir esse mundo onde o interior de Goiás vira memória, despedida e documento emocional. Não é estética por estética. É identidade.

DEZERT HORSE é um álbum sobre transição. Sobre sair. Sobre olhar pra trás sem romantizar, mas também sem negar. Sobre entender que crescer não é abandonar quem você foi — é carregar isso de outro jeito.

A gente sai desse disco com a sensação clara de que Gabriel Martins/Dezert Horse é um dos artistas brasileiros mais completos da sua geração. Não pelo hype. Não pelo algoritmo. Mas porque ele entrega verdade, visão e coragem estética.

Esse não é um álbum pra escutar distraído. É um álbum pra parar.Pra entrar.

E pra deixar algo em você quando acabar.

E deixa.

Website: Dezert Horse

Instagram Dezert Horse



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