Na semana passada, colocamos “Abril”, da Inúria, nas nossas Escolhas da Semana — e não foi por acaso. Bastaram poucos segundos de play para entender que ali tinha algo diferente acontecendo. Algo honesto. Algo que simplesmente entra e fica dentro da tua cabeça.
A Inúria surgiu em 2024, no meio desse caos bonito que é o início da vida adulta. A banda carrega no som a herança do hardcore melódico brasileiro — NX Zero, Fresno, Hateen — mas sem cair na nostalgia fácil ou no rótulo automático do “rock triste”. Aqui, a velocidade, a melancolia e a urgência caminham juntas. Mandy nos vocais, Ric e Mikha nas guitarras, Migz no baixo, Barros no teclado e Davi Uchiha na bateria formam um grupo jovem, cheio de personalidade e, principalmente, com algo real para dizer.
“Inúria” não é só nome de banda — é estado emocional. É síntese de frustrações amorosas, dúvidas existenciais, reflexões meio tortas aprendidas na escola mesmo, daquele jeito cru que só quem está atravessando essa fase entende. E “Abril” nasce exatamente desse lugar.
A faixa é produzida de forma maravilhosa. As guitarras carregam peso e emoção sem exagero, a bateria dá impulso e urgência, e tudo se encaixa num fluxo que cresce, explode e depois te deixa respirando fundo. Mas o que realmente fica são as letras. Letras pesadas, diretas, sem metáfora desnecessária, falando do fim de um relacionamento e do que sobra quando tudo termina.
O refrão bate forte, especialmente quando Mandy canta:
“Todos os cortes que eu me causei
Todas as coisas que eu abandonei
Não são bem-vinda, não são pra mim
Nossa história chegou ao fim”
A palavra “cortes” pode até soar física num primeiro impacto, mas o que a gente sentiu aqui na Divergent Beats foi algo ainda mais profundo: os cortes invisíveis. Tudo aquilo que a gente abandona de si mesmo para tentar caber numa relação. As partes da nossa vida que ficam para trás, os silêncios engolidos, os limites ultrapassados — até o momento em que a gente acorda e entende que merece mais. Que merece viver inteiro.

“Abril” tem essa força de hino emo contemporâneo. Um som que bate no coração e nas orelhas ao mesmo tempo. Daqueles que você escuta repetidas vezes não porque é fácil, mas porque é verdadeiro. A voz da Mandy carrega intensidade, fragilidade e potência, lembrando sim o impacto emocional de bandas como Evanescence, mas com uma identidade própria, muito ligada ao agora, ao Brasil, a essa geração.
Também é impossível não notar o quanto é bonito ver uma banda tão jovem fazendo música independente com essa entrega. Dá gosto entrar no Instagram da Inúria e ver o quanto tudo ali é feito com vontade, humor, caos e sonho. A sensação é clara: eles não estão esperando permissão. Estão fazendo.
“Abril” é só o começo, mas já mostra que a Inúria tem algo raro: verdade. E quando a música nasce desse lugar, ela encontra gente do outro lado disposta a ouvir. A gente ouviu. E ficou de boca aberta.



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