Normalmente, aqui no Divergent Beats, a gente gosta de começar os artigos por caminhos inesperados. Mas hoje o começo precisava ser outro. Precisava ser direto do coração da música. Direto da letra.
More than a real absence,
a fraction of thing – substance,
a glimpse of a feeling – memories.
Time comes and goes in a Negative Abyss.
Começar um disco — ou melhor, um novo capítulo de um disco — com versos assim é uma bomba mental. Uma daquelas que não explode em barulho, mas em consciência. E entender que “Negative Abyss”, faixa inédita da edição de um ano de Simbiose, nasceu inspirada no artigo The Negative Abyss: Surface, Depth, and Violence in Virilio and Stiegler, publicado na Cultural Politics, deixa tudo ainda mais potente. Não estamos falando apenas de música pesada. Estamos falando de pensamento, tempo, tecnologia, herança e ruptura.
E talvez não exista metáfora mais forte para tudo isso do que o próprio Hungrs.

Crédito: Paulo “Kon” Cunha (Kon Fotografia)
Não tem nada mais sensacional, pra gente do Divergent Beats, do que saber que em pleno mundo acelerado, algorítmico e descartável, existe uma banda formada por pai e filho que decide transformar afeto, conflito geracional e escuta mútua em música pesada, densa e honesta. Hungrs não nasce como conceito bonito de marketing. Nasce como sonho antigo, como tentativa, como insistência — e principalmente como simbiose real.
Marcos viveu o auge, a queda e a reinvenção da indústria fonográfica. Lucca cresceu no meio do streaming, da velocidade e da cultura digital. E ao invés de se distanciarem, eles decidiram criar juntos. O resultado é Simbiose, álbum lançado em 2025 e que agora, em sua edição de primeiro aniversário, retorna ainda mais profundo: com a inédita “Negative Abyss”, versões instrumentais de todas as faixas e uma nova variação da arte assinada pelo artista turco Abidin Katipoğlu — uma capa que não ilustra, mas traduz visualmente a ideia de coexistência, tensão e troca.
O que a gente pensa desse disco? Que ele exige tempo. Exige fone de ouvido. Exige presença. Simbiose não é um álbum para tocar enquanto se faz outra coisa. Ele pede silêncio, atenção e entrega. É um trabalho que cresce quando você lê as letras junto com a música, quando percebe como as camadas sonoras conversam com angústias muito contemporâneas: ansiedade, aceleração, sensação de vazio, medo de se perder no meio de tanta imagem rasa.
Além de “Negative Abyss”, faixas como “The Seeker” seguem ecoando muito depois do play acabar. Quando a letra diz:
You may not know
But the time to run away is now gone
You may stay in the shadows
You can live in the dark
But what matters is that one day everyone will pay
não soa como ameaça — soa como alerta. Como se alguém estivesse te olhando nos olhos e dizendo que não dá mais pra fingir que não vê. Que uma hora, todo mundo paga o preço do tempo desperdiçado.
Hungrs faz música pesada sem cair no óbvio. Faz metal introspectivo, atmosférico, tenso, sem nostalgia vazia e sem fórmulas fáceis. É pesado porque é humano. É denso porque é verdadeiro. E talvez seja exatamente por isso que esse disco continue encontrando novos ouvintes, um ano depois, dentro e fora do Brasil.
Simbiose não é só um álbum. É um processo. É um diálogo entre gerações. É um lembrete de que ainda dá pra criar algo profundo em meio ao ruído. E “Negative Abyss” chega não como bônus qualquer, mas como chave que aprofunda tudo o que já estava ali desde o início.
Coloque o fone. Escute com calma. Leia as letras. E deixe esse abismo te atravessar.




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