Às vezes, bastam dois minutos de música para entender tudo: a simpatia, a introspecção, as dúvidas, as escolhas de letra, de melodia e de voz que existem por trás de uma banda. Foi exatamente isso que aconteceu quando escutamos Martin e Os Martírios pela primeira vez. Algo ali bateu diferente. Algo ali parecia honesto demais para passar batido.
Martin e Os Martírios são de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e surgem no início da década de 2020 misturando rock alternativo e MPB com uma naturalidade que não tenta impressionar — apenas existir. Liderada por Martin Menezes Neto, a banda construiu sua trajetória com calma, lançando singles como Falo Demais (2022), Maldição (feat. Felipe Jack, em 2024, com direito a versão ao vivo exibida no Radar da TVE RS) e Pouco Alegre (2025), que já anunciava que algo maior estava sendo preparado. Esse algo agora tem nome: O Azar Está Aí Pra Acontecer.
Escutamos o álbum várias vezes. Depois fomos atrás dos vídeos, das apresentações, do jeito como eles ocupam o palco. E aí tudo fez ainda mais sentido. Dá pra ver claramente a felicidade de quem está fazendo música porque precisa fazer, e não porque quer cumprir expectativa. Dá pra sentir os valores ali: a entrega, a ironia, a vulnerabilidade, o riso torto que aparece mesmo quando a letra fala de cansaço, desalento ou confusão.
As letras são um capítulo à parte. Em Esse Papo, por exemplo, tem um trecho que grudou na nossa cabeça de um jeito muito específico, quase como uma conversa atravessada num bar às três da manhã:
“E não venha com esse papo de amor / Estou mais de uma semana
sem dormir /e sempre tenho uma bustinha de dividir.
Existe algo de brutalmente humano nisso. Não é pose. Não é frase feita. É vida acontecendo no meio do caos, com humor, simpatia e uma certa filosofia do “foda-se” que, curiosamente, também é uma forma de carinho.
Já em Maldição, a banda entrega uma abertura que é simplesmente absurda de boa:
“Pela idade da morte eu passei / foi por sorte / meu santo é forte e fiz ele trabalhar”.
É poético, é irônico, é cotidiano e, ao mesmo tempo, cheio de imagens fortes. Parece simples, mas não é. Parece leve, mas carrega peso.
O disco tem dez faixas, incluindo músicas que já faziam parte do percurso da banda, e funciona como uma travessia emocional completa. Do começo ao fim, você sente como se estivesse na frente de um show: cantando errado, rindo no meio da música, dançando sem saber dançar, gritando refrão como quem precisa colocar algo pra fora.
Pouco Alegre talvez seja o melhor exemplo disso tudo condensado. Na nossa leitura, soa quase como uma carta de amor torta à própria Porto Alegre — não uma carta romântica, mas honesta, cheia de contradições. Quando Martin canta:
“É fogo no dilúvio da minha própria maluquice / minha redenção é conseguir me acordar / eu vou entrar no peito mesmo sem saber dançar”,
fica impossível não sentir. É sobre errar, tentar, continuar mesmo sem manual.
O Azar Está Aí Pra Acontecer não é um disco sobre derrota. É um disco sobre aceitar que a vida não vem organizada, que o azar faz parte, que o afeto é confuso, que o cotidiano machuca — e mesmo assim vale a pena continuar criando, tocando, vivendo. Martin e Os Martírios entregam aqui um trabalho que não pede licença, mas também não grita por atenção. Ele simplesmente fica. E cresce dentro de quem escuta.
Pra gente, no Divergent Beats, esse álbum é exatamente isso: um retrato honesto do agora, feito por gente que entende que música não é só som — é presença. E presença, quando é de verdade, emociona.
Instagram Martin e Os Martírios

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