Desde o primeiro play, fica claro que Marcus Lopes não está interessado em criar distração. Ele constrói um disco que te puxa para dentro do seu campo de visão — um lugar onde guitarra e violino caminham juntos, sustentando histórias que parecem simples à primeira escuta, mas que vão se entranhando devagar. Não é um álbum feito para chocar pelo volume. É um álbum que incomoda pela lucidez.
A sensação inicial pode até ser de distância. Como se aquelas cenas não fossem exatamente nossas. Mas basta escutar de novo para perceber: a gente também vive isso. A gente também acompanha as notícias, engole absurdos, normaliza horrores, sente a cidade mudar, vê o tempo passar e percebe que muita coisa do que nos formou já não existe mais. Marcus apenas colocou em palavras — e cordas — aquilo que muita gente sente, mas raramente diz em voz alta.
Quando ele canta “olha só quem diria, mais um profeta preso por pedofilia” em “Acompanhando as Notícias”, não existe provocação gratuita. Existe recusa. Recusa em fingir que isso não faz parte do nosso cotidiano. Em “Cria da Corporação”, versos como “vou dando teu sangue porque o meu ninguém pode tomar” escancaram estruturas que moldam vidas, corpos e escolhas. Não há grito. Há consciência. E isso, às vezes, é ainda mais forte.
O disco também sabe rir — mas é um riso amargo. Em faixas como “Meu Médico” ou quando Marcus observa a chegada inevitável da inteligência artificial, o humor aparece como ferramenta crítica, não como alívio. A ironia não suaviza. Ela afia.
Em “BH Anos 10”, o álbum desacelera para olhar para trás. A cidade que muda, os lugares que desaparecem, a infância que não volta. Não é nostalgia romântica — é quase um luto silencioso. A percepção de que crescemos num mundo que já não existe, enquanto tentamos entender o que está surgindo no lugar.
Musicalmente, tudo soa orgânico, pensado, necessário. A guitarra conduz, o violino comenta, tensiona, acolhe. As músicas se conectam como capítulos de uma mesma história, criando um álbum que pede escuta inteira. Um disco que não funciona em fragmentos. Ele precisa de tempo, atenção e presença.
Bloquinho do Juízo Final não é um álbum de raiva explosiva.É um álbum de alguém parado no meio do caos, dizendo: eu vejo tudo. E ver, hoje, já é um ato político.
Conversamos com Marcus Lopes sobre esse olhar atento, sobre criação, cidade, absurdos cotidianos e a coragem de colocar tudo isso no mundo sem pedir permissão.
A seguir, você confere a entrevista com Marcus Lopes.
Esse disco soa como alguém que observa o mundo com atenção, sem pressa de julgar, mas sem fingir que não está vendo nada. Em que momento você percebeu que precisava transformar o que você vê todos os dias em música — mesmo sabendo que nem todo mundo quer escutar?
Marcus: Eu percebi que precisava transformar minhas observações em música ali por 2008, 2010, que foi quando eu notei que infelizmente meu ego era grande o suficiente pra me enquadrar na categoria “artista”.
Mas foi durante a pandemia que eu despiroquei legal e mudei um pouco a cara das minhas músicas, tanto os temas quanto o tom delas. Eu trouxe mais de quem eu sou no dia a dia pro repertório.
Foi daí que saiu o EP “Comigo Tudo Ótimo”, de 2023, se não me engano, e depois esse disco novo, o “Bloquinho do Juízo Final”.
A sonoridade do álbum é muito marcada pelo violão e pelo violino, que caminham juntos o tempo todo, quase como vozes que comentam as histórias que você canta. Esse som nasceu junto com as letras ou foi a forma mais honesta que você encontrou de sustentar essas narrativas?
Marcus: Eu fiquei obcecado por música country americana e quis ver como eu poderia roubar elementos dela sem que ninguém percebesse (falhei). Paralelamente, uma coisa me chamou a atenção: o fato de que eu não venho de uma família de fidalgos nem sou afilhado do Caetano.
Gravar é caro. Por isso, eu queria compor músicas que pudessem ser gravadas sem gastar muita grana. Só violão e vozes. Abandonei todas as ideias mais complexas que apareciam no caminho.
Durante esse processo, o violinista João Vitor Romano conheceu a minha música e se ofereceu pra colaborar, e foi daí que veio a coisa de dar espaço pro violino no álbum. O João arrasa. Executou perfeitamente os solos que eu compus e criou outros que são grandes momentos do disco.
Eu aproveitei e meti uns tecladinhos também pra dar um “arran”.
Em “Acompanhando as Notícias”, você coloca em palavras coisas que a gente lê, vê e engole todos os dias. Quando você canta “Essa não,quem diria, mais um profeta preso por pedofilia”, você está provocando — ou simplesmente se recusando a normalizar o absurdo?
Marcus: O primeiro verso dessa música, “Essa não, quem diria, mais um profeta preso por pedofilia”, me ocorreu quando eu vi a terceira notícia sobre uma figura religiosa abusando de crianças numa mesma semana. A partir desse verso, me veio a ideia de que a letra seria tipo um sujeito assistindo um jornal e fazendo um monólogo interno enquanto via notícias horríveis.
Acho que, na real, nela, eu estou expressando o quanto essa normalização à qual você se refere é um negócio de doido, mas não sei nem se existe uma recusa.
O sujeito no final não pede pela solução de nenhum problema. Ele pede o escapismo de um anúncio publicitário. Eu sempre fui um cara muito otimista.

“Cria da Corporação” traz imagens muito fortes de exploração e pertencimento forçado. Existe ali uma sensação de despertar, de perceber estruturas que moldam a gente sem pedir permissão. Esse disco nasceu mais da raiva — ou da lucidez?
Marcus: Quem não tá puto, não tá lúcido. Não que eu esteja lúcido, mas definitivamente estou puto.
De qualquer forma, não sei se o disco nasceu disso.
Algumas músicas quase fazem rir, mas é um riso desconfortável — como em “Meu Médico” ou quando você fala da inteligência artificial chegando com tudo. Você usa o humor como defesa, como ironia ou como uma forma de deixar a crítica ainda mais afiada?
Marcus: Eu gosto muito de rir de coisa séria, então tem isso.
Mas eu acho que essas músicas tipo “crítica social foda”, que são muito diretas, acabam ficando meio panfletárias. O inglês tem o termo “preachy”, que vem do “preach”. Pregar, né? Não sei se existe uma tradução adequada.
O desafio que eu estabeleci pra mim foi me expressar desviando da coisa do professoral, e o humor acabou sendo uma consequência dessa decisão.
“BH Anos 10” carrega uma nostalgia que não é romântica — é quase um luto por uma cidade e por um tempo que já não existem mais. Esse álbum também é sobre lidar com a sensação de que o mundo que formou a gente ficou para trás?
Marcus: Apaga isso agora!
Ao longo do disco, dá pra sentir que você decidiu simplesmente colocar isso no mundo e pronto — com guitarra, violino, palavra e verdade. Em algum momento você teve medo da reação das pessoas ou entendeu que dizer o que precisava ser dito era mais importante do que agradar?
Marcus: Eu estou curioso pelo que o meu pai pode pensar dos dois primeiros versos de “Rolezinho Mais ou Menos”.
Também existe a chance de uma ou outra cobra de escritório das que inspiraram “Cria da Corporação” descobrir a homenagem que eu fiz pra elas.
Mas nenhum grilo. O truque é não investir em divulgação.
Pra fechar: que mensagem você gostaria de deixar para os leitores da Divergent Beats — pessoas que escutam música para entender o mundo, questionar o que está ao redor e não fingir que está tudo bem quando claramente não está?
Marcus: Mensagem? Ouça meu disco. Mostre pros seus amigos. Esconda dos seus inimigos
Obrigado de novo pelo convite!

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