Existe algo muito delicado — e ao mesmo tempo muito difícil — em escrever sentimentos profundos em inglês quando eles nascem de uma vivência latina. O inglês pode até ser uma língua “fácil” para estruturar frases, mas é extremamente exigente quando o assunto é emoção real, crua, sem filtro. Nem todo artista consegue atravessar essa barreira. Enzo Borges conseguiu.

Cantor e compositor de Santos (SP), Enzo começou a escrever músicas aos 12 anos, quando ainda aprendia os primeiros acordes no violão. Desde então, construiu uma trajetória totalmente independente, DIY no sentido mais honesto da palavra: ele escreve, grava, produz, mixa e masteriza suas próprias músicas. Nada aqui soa terceirizado. Tudo soa vivido.

Depois do EP lançado em 2019 e do álbum de estreia em 2021, Enzo chega ao seu segundo disco independente, i care about what you think of me, lançado em setembro de 2025, com algo raro: maturidade emocional sem perder vulnerabilidade. São 10 faixas, cerca de 45 minutos, onde ele se abre quase sem armadura — e faz isso com uma honestidade que dói, acolhe e liberta ao mesmo tempo.

Esse álbum fala sobre olhar, julgamento, identidade, autoestima, ansiedade, sexualidade e crescimento. Mas não fala de forma genérica. Ele entra no detalhe. Ele entra no incômodo. Ele entra naquela pergunta que a gente tenta evitar: até que ponto quem eu sou foi moldado pelo que os outros esperam de mim?

E o mais impressionante é como Enzo transforma esse conflito em música que comunica. Você escuta e entende. Não só racionalmente — emocionalmente. Isso fica muito claro em faixas como “I don’t feel beautiful”, um soco delicado sobre autoimagem e distorção de percepção, ou “Kuleshov effect”, que desmonta a ideia de identidade construída a partir das projeções alheias. “Shiver me shiver me” é quase um pedido de permissão para sentir, enquanto “pink purple blue” traz um retrato sensível e honesto sobre bissexualidade, sem didatismo, sem medo.

Mas talvez a faixa que melhor sintetize o espírito do disco seja “voiceless faceless”. Quando Enzo canta “on stage you will see every flaw in me”, ele entrega o fio condutor de todo o álbum. Não há personagem. Não há pose. Há exposição. Há coragem.

Sonoramente, o disco é muito bem resolvido. Existe um clima que lembra Londres, Europa, indie alternativo contemporâneo — referências que passam por Paramore, The Cure, Beabadoobee, Fresno —, mas tudo isso filtrado por uma identidade muito própria. Nada soa derivativo. A produção é grande, limpa quando precisa, crua quando deve ser. E a voz de Enzo… a voz é um capítulo à parte. Ela emociona porque não tenta impressionar. Ela apenas diz a verdade.

Os videoclipes também ampliam esse universo. “dancing with wolves”, inclusive indicado ao Festival Curta Santos, é bonito, simbólico, divertido e profundo ao mesmo tempo — exatamente como o disco. É estética com propósito, não só imagem vazia.

No fim das contas, i care about what you think of me é um álbum sobre escolher. Escolher entre negar quem você é ou lidar com a dor de se aceitar. E Enzo não oferece respostas prontas. Ele compartilha o processo. Ele se coloca no meio do caminho — e convida a gente a caminhar junto.

É um disco bonito. Bonito de verdade. Daqueles que você escuta com fone, coração aberto e a sensação de que alguém, em algum lugar, conseguiu colocar em música exatamente aquilo que você nunca soube explicar em palavras.

E isso, hoje em dia, é arte no seu estado mais puro.

Instagram Enzo Borges



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One response to “Vulnerável, intenso e necessário: Enzo Borges em i care about what you think of me”

  1. […] Bullet. Não por acaso. Foi curioso perceber isso vindo, inclusive, de outros artistas — como o Enzo Borges, sobre quem escrevemos recentemente e que já cruzou caminhos com a banda naquele featuring […]

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