Quando “Espelho” saiu no ano passado e entrou nas nossas Escolhas da Semana, a sensação foi imediata: tem algo diferente acontecendo aqui.

Não era só mais uma faixa emo. Era confissão. Era ruído emocional. Era alguém dizendo coisas que muita gente sente, mas quase ninguém consegue verbalizar sem travar.

Desde então, Gui Vella ficou no nosso radar. E quando ele anunciou o EP “…e a chuva apagou”, a expectativa era real. Tanto que, no dia 30 de janeiro, a primeira coisa que fizemos de manhã foi dar play. Sem distrações. Sem pular faixa. E o resultado? Um EP pequeno no tempo — cinco faixas, cerca de 13 minutos — mas gigante no impacto.

Gui Vella é um artista independente de São Paulo que entende algo essencial: às vezes, a única forma honesta de existir é gritar o que dói enquanto se toca guitarra. Sua música vem do emo, do rock triste, do lo-fi emocional, mas não como estética vazia — vem como necessidade. Influências como Polara, Umnavio e Cap’n Jazz estão ali, mas filtradas por uma vivência muito própria, muito agora.

“…e a chuva apagou” soa como um diário aberto depois de uma ruptura. E não apenas uma ruptura amorosa no sentido romântico, mas aquelas que desmontam a gente por dentro: o fim de uma relação, de uma amizade, de uma versão antiga de si mesmo. O EP fala sobre amor que destrói, nostalgia que insiste, vontade de voltar — não necessariamente para alguém, mas para quem a gente era antes de quebrar.

As letras atingem direto porque são simples e cruéis na medida certa.

Frases como “quem é você? não te conheço”, “pra onde você foi?”, “mesmo me esforçando, eu não te enxergo” ecoam como perguntas que a gente já fez em silêncio. Em outros momentos, o EP afunda ainda mais: “o vazio que nada vai preencher”, “que tudo volte”, “como que eu faço pra voltar pra mim?”. É impossível não se reconhecer em pelo menos uma dessas linhas.

O mais bonito — e mais doloroso — é como tudo se conecta. As faixas conversam entre si como pensamentos que voltam em looping depois de uma perda. Nada soa gratuito. Nada soa exagerado. É dor, mas é uma dor contida, lúcida, que sabe exatamente o que está dizendo.

Sonoramente, o EP é forte sem ser barulhento à toa. Guitarras que carregam peso emocional, vocais que não pedem permissão, uma estética que mistura rock alternativo, emo e lo-fi de forma natural. É o som de alguém que não está tentando agradar — está tentando sobreviver sentindo.

A gente escutou esse EP mais de vinte vezes. Não porque ele é confortável, mas justamente porque ele é honesto. “…e a chuva apagou” é daqueles trabalhos que acompanham fases difíceis, que não oferecem respostas prontas, mas fazem companhia quando tudo parece confuso demais.

Gui Vella entrega aqui um EP que não tenta ser maior do que é — e por isso mesmo se torna enorme. Um trabalho curto, direto, intenso e necessário. Daqueles que você escuta uma vez, depois outra, depois outra… até perceber que algumas dores ficam mais suportáveis quando alguém tem coragem de cantá-las em voz alta.

E isso, pra gente, já diz tudo.

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