A gente colocou os fones, apertou o play em “Meu Templo” e, em 23 segundos, já não dava mais para voltar atrás.
Primeiro, aquela harmonização densa, quase hipnótica, preparando o terreno. Depois, a voz do Murillo entra inteira, sem truques, sem pressa. E então — explode. Um rock indie intenso, carregado de emoção, que não pede permissão e não tenta ser fácil. Ali ficou claro: isso aqui tem assinatura. Isso aqui é Abissal.

O que nos pegou de imediato não foi só o impacto, mas a coerência. Tudo funciona junto. Instrumentação, voz, dinâmica, silêncio, explosão. Dá para sentir que existe uma construção longa por trás, uma banda que não chegou aqui por acaso. Nada soa improvisado, nada parece feito às pressas. Existe tempo, pesquisa, escuta — e uma produção forte, muito bem pensada, que respeita a música e quem está ouvindo.

A Abissal carrega uma trajetória extensa, feita de fases, hiatos, mudanças de nome e amadurecimento artístico. E talvez seja exatamente isso que dá tanta densidade ao som atual. Os singles já lançados — “Meu Templo”, “Ouroboros” e “Mira Céu” — revelam uma banda que olha para dentro sem medo. Grunge, rock alternativo, indie e paisagens etéreas se misturam de forma orgânica, criando uma experiência que é ao mesmo tempo pesada e contemplativa.

O que mais nos tocou foi perceber que nada aqui existe para preencher espaço. Cada escolha parece ter um porquê. Voz e instrumentos caminham juntos, sustentando uma identidade que não tenta agradar tendências, mas sim dizer algo verdadeiro. E quando a música vem desse lugar, ela atravessa — não importa o rótulo.

Tivemos a oportunidade de conversar com a Abissal sobre esse caminho, sobre o que foi construído até aqui, sobre o que começa a se desenhar no horizonte e também sobre a criação da sua própria casa discográfica — um passo que fala muito sobre autonomia, visão e compromisso com a arte independente.

E é com muito prazer que compartilhamos essa conversa com vocês.

A seguir, você confere a nossa entrevista com a Abissal.

A Abissal carrega uma história longa, feita de começos, pausas, mudanças e retornos. Quando vocês olham para tudo isso hoje, o que mais chama a atenção: o quanto vocês mudaram ou o que permaneceu intacto ao longo do caminho?

Abissal: O que mais nos marca é a resiliência da nossa essência. Embora a forma tenha mudado drasticamente desde 2007 (quando a ideia do projeto surgiu, quando éramos jovens de 15/16 anos de idade rs) — com novos timbres, tecnologias e maturidade — o “sentimento abissal” permanece o mesmo. O que ficou intacto foi essa necessidade visceral de traduzir a introspecção em som. Mudamos as ferramentas e a consciência sobre o nosso papel na cena, mas o desejo de mergulhar fundo e buscar o que está submerso continua sendo o nosso combustível.

O som de vocês passeia pelo grunge, pelo rock alternativo, pelo dream pop e por atmosferas etéreas. Em algum momento vocês pensaram “queremos soar assim” ou essa mistura foi surgindo naturalmente, acompanhando quem vocês são como pessoas e artistas?

Abissal: Foi um processo bastante orgânico, porém com um certo direcionamento de conceito sonoro. Nossas raízes estão cravadas no post-rock, no alternativo, no grunge noventista… mas nossas trajetórias pessoais nos levaram a consumir desde a complexidade de Radiohead e The Smile até brasilidades como Clube da Esquina e Os Mutantes.

Essa mistura reflete nossas fases: a textura e a ambiência do Dream Pop e do Post-Rock encontram a agressividade do passado, em certos pontos. Não houve um plano; houve uma evolução natural da nossa audição e sensibilidade; e, claro, a contar, nessa nova fase da Abissal, com a colaboração magistral do produtor e fundador do Selo Casalago Records, Gui Godoy (Maestro/USP), o qual, sem dúvidas, através do seu vasto conhecimento musical, nos colocou num outro nível sonoro.

Existe algo muito forte no contraste entre silêncio e explosão na música da Abissal — momentos de introspecção profunda seguidos de intensidade quase catártica. Esse movimento nasce mais do que do emocional individual de vocês ou da forma como vocês sentem o mundo hoje?

Abissal: Acreditamos que seja uma via de mão dupla. A música da Abissal é o nosso filtro. O contraste entre o silêncio aveludado e o grito histérico é a nossa forma de lidar com a dualidade da vida. O mundo é caótico e barulhento, mas o nosso interior muitas vezes busca um templo de silêncio. Essa catarse que acontece nas músicas é a nossa tradução para esse choque entre o que sentimos e o que o mundo nos exige. Mas sim, essas nuances e dinâmicas nas músicas, através dos ensinamentos do produtor Gui Godoy, tem se tornado uma característica da Abissal, na execução das músicas. 

Depois de tantos anos criando, errando, acertando e amadurecendo, dá a sensação de que algo importante está se aproximando. Esse próximo passo que a Abissal está prestes a dar soa mais como um fechamento de ciclo — ou como o início de uma fase completamente nova?

Abissal: O EP “Sutra” tem o peso de uma transição. Ele encerra um ciclo de maturação que passou por “Tardígrado”, o qual foi um álbum de 2016 (na época a banda chamava-se ‘Holo’) e anos de experimentação, mas simultaneamente abre um portal para uma fase muito mais profissional e consciente, impulsionada pelo Selo Casalago e pelo time de profissionais que montamos. É o momento em que deixamos de ser apenas uma banda de estúdio para nos tornarmos um movimento sólido. 2026 vem quente! 

Os singles que já chegaram — “Ouroboros”, “Mira Céu” e “Meu Templo” — apontam para uma jornada muito interior, quase espiritual. Sem revelar demais, o que vocês sentem que ainda está por vir e para onde a Abissal está caminhando daqui pra frente?

Abissal: Para o nosso próximo trabalho de estúdio, no qual entraremos agora em janeiro/26 para gravar, decidimos olhar para o nosso passado. Estamos resgatando quatro músicas antigas, da gênese da banda, e realocando essas composições para os tempos atuais. Estamos revendo e retrabalhando cada ponto delas para que conversem com a nossa sonoridade de hoje. O resultado está ficando incrível, melhor do que o esperado, e mostra uma Abissal que respeita sua história enquanto se renova.

“Meu Templo” começa de um jeito quase cósmico, como se abrisse um espaço fora do tempo, e aos poucos se transforma em algo muito humano, intenso e verdadeiro. O que essa música diz sobre vocês hoje que talvez palavras fora da música não consigam explicar?

Abissal: “Meu Templo” é uma música que trata de autocuidado espiritual no sentido mais cru e honesto da palavra. Ela funciona como um diálogo consigo mesmo, quase como se estivéssemos em um divã de terapia, buscando curar traumas e dores causados por abandonos familiares profundos. A introdução cósmica cria o distanciamento necessário para mergulhar nesse processo, mas a música se torna intensa e verdadeira porque é ali, naquele templo sonoro, que conseguimos encarar essas feridas e transformá-las em algo que possamos carregar com dignidade.

A Brasilidade Live Casarão Session foi um daqueles momentos raros que realmente atravessam quem escuta. Vocês reinterpretaram canções como “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, “You don’t know me”, e “Fala”, de um jeito profundamente Abissal — especialmente essa última, que chega a ser dilacerante e luminosa ao mesmo tempo. Como nasceu a ideia dessa sessão e o que guia vocês na escolha de músicas que, sob a ótica de vocês, ganham uma nova vida tão intensa?

Abissal: O Clube da Esquina e artistas como Lô Borges são a nossa bússola melódica. Escolhemos canções que já possuíam essa “melancolia luminosa”. “Fala” foi escolhida porque sabíamos que o contraste vocal da Abissal poderia dar a ela uma dimensão épica. O que nos guia é o arrepio: se a música tem uma alma que podemos “vestir” com a nossa estética, ela entra para o repertório. Mas, respondendo à sua questão, quando voltamos com o projeto da Abissal, decidimos recomeçar escolhendo algumas músicas de brasilidade dos anos setenta, o que foi um desafio para nós, pois nunca havíamos tocado nada ‘brasileiro’. Selecionamos as músicas, trabalhamos nas releituras (com a cara da Abissal), com o objetivo de gravá-las no Casarão Session.

Além da banda, existe também a criação da Casalago Records, que nasce com a proposta de fortalecer a cena independente do interior paulista. Como é dividir a energia entre criar arte e, ao mesmo tempo, construir um espaço para que outros artistas possam existir e florescer? Isso muda a forma como vocês enxergam a própria Abissal?

Abissal: Muda tudo. Fundar o Casalago Records, com a visão do Gui Godoy, nos deu uma responsabilidade maior. Hoje, não olhamos para a Abissal isoladamente; olhamos para ela como parte de um ecossistema. Dividir essa energia é cansativo, mas extremamente recompensador, porque quando ajudamos a cena a crescer, o nosso próprio som ganha um contexto mais rico. O profissionalismo que exigimos dos outros artistas do selo acaba elevando o sarrafo para a nossa própria criação.

Pra fechar, de coração aberto: o que vocês gostariam de dizer para os leitores da Divergent Beats — pessoas sensíveis, intensas, em constante transformação, que encontram na música um lugar para se quebrar, se reconstruir e continuar?

Abissal: Gostaríamos de dizer: mergulhem. Não tenham medo da própria profundidade. A música é o único lugar onde podemos nos desmanchar e nos reconstruir em questão de minutos. Se você se sente intenso demais para esse mundo, saiba que o som da Abissal foi feito justamente para ser o seu santuário. Nos vemos nas profundezas!

https://www.instagram.com/abissal.banda



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One response to “Entrevista | Abissal — 23 segundos bastam para entender que isso é sério”

  1. […] tivemos a oportunidade de conversar com a banda em entrevista (aqui), algo ficou muito claro pra nós: existe ali uma entrega rara. Uma honestidade que não se ensaia. […]

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