Ouvir TRANSE DA TERRA EM PROSA antes do mundo foi uma daquelas experiências que não passam ilesas. Não é só um EP que você escuta — é algo que te atravessa, te desloca, te obriga a parar e pensar. Desde os primeiros minutos, fica claro que Yannick Hara não está apenas abrindo um novo capítulo dentro de uma trilogia: ele está consolidando um manifesto artístico, político e cinematográfico.

Inspirado no clássico Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha, o prólogo do terceiro volume aprofunda ainda mais essa sensação de utopia em colapso. Uma utopia que não pertence só ao passado do cinema novo brasileiro, mas que ecoa de forma assustadoramente precisa nas situações sociopolíticas que o Brasil viveu nos últimos anos — e que continuam se repetindo ao redor do mundo. É impossível ouvir esse disco sem sentir o peso do presente.

O que impressiona é o cuidado. A narrativa é clara, a produção é impecável, as palavras cortam fundo e, ao mesmo tempo, existe uma melodia fresca, diferente, viva. Dá para sentir o quanto o cinema não é apenas referência estética, mas método de pensamento. Existe pesquisa. Muita pesquisa. Histórica, política, cultural. Nada aqui é superficial ou improvisado.

Uma das faixas que mais nos atingiu foi “O BRASIL é A TERRA EM TRANSE 3”. Em determinado momento, Yannick escancara uma ferida difícil de ignorar: a de brasileiros que reproduzem os gestos, discursos e violências de quem os colonizou, tudo em nome de uma aceitação que nunca chega. É um soco no estômago. Um retrato duro, necessário e profundamente atual. Não há conforto nessa escuta — e talvez seja exatamente esse o ponto.

TRANSE DA TERRA EM PROSA se revela como uma obra única: rap que dialoga com cinema novo, tropicalismo, crítica social e memória histórica. Um trabalho que não se limita a denunciar, mas que constrói pensamento. Que não simplifica, mas complexifica. Que não oferece respostas fáceis, mas exige presença.

Conversamos com Yannick Hara sobre esse percurso, sobre escolhas estéticas, impacto, reconhecimento, pesquisa e sobre o que significa criar arte em um mundo permanentemente em estado de transe.

A seguir, você confere a nossa entrevista com Yannick Hara.

Depois de três volumes e de uma trajetória que mistura rap, cinema e política, fica a sensação de que Terra em Transe não é apenas um projeto musical, mas um mundo inteiro. Em que momento você percebeu que isso tinha virado um manifesto — e não apenas um disco?

Yannick: Desde o início, quando o Pedro Paulo Rocha, filho de Glauber Rocha, me mostrou o roteiro, as falas do filme Terra em Transe (1967), senti que era importante fazer essa junção do rap nacional com o cinema nacional, e essa manifestação seria de extrema importância para a cultura como um todo, além da junção, o resgate, a memória, a valorização do que é nosso, a nossa história. Não precisamos parecer com o tal “fulano ou fulana brasileiro ou brasileira”, e sim sermos nós mesmos. E nós sendo nós mesmos é muito foda!

O diálogo com o filme Terra em Transe, de Glauber Rocha, atravessa toda a trilogia. Para você, essa “utopia em colapso” que o filme propõe ainda é a mesma — ou ela se transformou diante do Brasil e do mundo em que vivemos hoje?

Yannick: Ainda é a mesma, porém mais tecnológica. A prisão, o controle mental está na palma das nossas mãos, estão nas mentiras como verdades, nas verdades que não queremos ver e sentir, o Brasil é a Terra em Transe, o Brasil ama o Transe e ama o Regresso.

Ao ouvir o EP O TRANSE DA TERRA EM PROSA, dá para sentir uma narrativa muito clara, uma produção extremamente cuidadosa e uma pesquisa profunda por trás de cada escolha. Como foi o seu processo de investigação — estética, política e histórica — para chegar até esse ponto da trilogia?

Yannick: O EP O TRANSE DA TERRA EM PROSA é um prólogo do Terra em Transe Vol 3 La Transe que será lançado em 2027,  já lançamos alguns singles como o “Dilma Inocente” com a Ava Rocha e o Negro Leo, “Você Acredita Neles” com o Jonnata Doll e Os Garotos Solventes, “Quem Deve Teme (100 anos de Sigilo) com o Rodrigo Carneiro vocalista da banda Mickey Junkies, “P*rr* Nenhuma” com Jairo Pereira e “O BR ama o Transe, o BR ama o Regresso” com Guizado, Marcelo Cabral e Dinho Almeida da banda Boogarins, lançamos também um single chamado “Tropicália” com Bernardo Beduíno,  Matuto S.A. e Jhon Douglas uma versão em rap de uma clássica e importante canção brasileira. 

Todos esses singles se tornaram capítulos desse encontro da Terra em Transe com o rap e o resultado foi a criação do RAP DO CINEMA NOVO.

O EP O TRANSE DA TERRA EM PROSA é também uma continuação dos discos Terra em Transe Vol 1 Brasilis e Vol 2 Politiki, onde nos aprofundamos nas falas do filme, transformando-as em música. Não são apenas samples, são prosas, diálogos, queremos eternizar, juntar o roteiro do filme através de, mas também com as batidas do boom bap, estilo sonoro peculiar do rap. O Terra em Transe é um rap; tem ritmo, tem atitude, tem poder, tem rima, tem tudo o que há de mais essencial do rap. É nessanarrativa que queremos nos aprofundar.

Existe uma frescura sonora no EP que não abandona o peso do discurso. Como você equilibra melodia, palavra e impacto político sem que um anule o outro?

Yannick: Na questão da melodia, o beatmaker March Blanco é o responsável direto pela criação e pela liberdade desse olhar. Na palavra, busquei simplificar, repetir algumas palavras até pra ampliar o entendimento e, acima de tudo, repensar e revisar o significado dessas palavras, versos e rimas com a aplicabilidade em nossas vidas.

Em “O TRANSE DA TERRA EM PROSA”, você toca em uma ferida profunda: a ideia de brasileiros que reproduzem a lógica de quem os colonizou na tentativa de serem aceitos. Quando você escreve versos assim, pensa mais em provocar, denunciar ou provocar consciência — ou tudo isso ao mesmo tempo?

Yannick: Tudo ao mesmo tempo, a colonização foi uma das coisas mais terríveis e perversas que o ser humano já inventou na humanidade. Falar sobre isso é de extrema necessidade e importância.

Esse é um trabalho que dialoga muito com o presente, mas também com ciclos históricos que se repetem no Brasil e no mundo. Que tipo de impacto você espera causar em quem escuta esse álbum hoje — especialmente em tempos de tanta confusão sociopolítica?

Yannick: O impacto estará na identificação de quem se identificar, não busco orientar, convencer, salvar ninguém com esse trabalho. É importante pra obra, o resgate do nome de Glauber Rocha, levá-lo para o povo, a inserção do filme Terra em Transe no rap e na cultura Hip Hop brasileira e apenas isso. O despertar sociopolítico é individual e intransferível.

Ao longo da trilogia, você recebeu reconhecimentos, circulou em outros estados e levou esse discurso para fora do Brasil. O que muda na forma como você enxerga sua própria obra quando ela encontra pessoas de contextos tão diferentes?

Yannick: Ficamos muito felizes em poder circular com esse trabalho. Em 2025, fizemos 10 shows, 7 em São Paulo, 1 em Salvador, na Bahia, 1 em Curitiba, no Paraná, e 2 em Joanesburgo, na África do Sul. Buscamos ser o mesmo em todos esses lugares e buscamos também promover a reflexão; não defendemos partido político algum e isso nos permite estar em lugares diferentes e polarizados. Queremos falar a verdade baseada em fatos reais, verídicos e trazer a pergunta “Estou conivente com isso? Qual é a minha participação nisso tudo?”

No dia 21 de fevereiro realizaremos o lançamento do EP O Transe da Terra em Transe no Teatro Paulo Autran no Sesc Pinheiros em São Paulo.

Para finalizar: qual é a mensagem que você gostaria de deixar para os leitores da Divergent Beats — pessoas sensíveis, críticas, inquietas, que acreditam na arte como ferramenta de pensamento, resistência e transformação?

Yannick: Continuem consumindo arte, arte como alimento, a arte deve fazer parte da cesta básica. Resistir é existir, questionar é criticar, o tempo agora é dos inconformados.

https://www.instagram.com/yannickhara

Yannick Hara Linktree



One response to “Entrevista | Yannick Hara — quando a arte vira transe, manifesto e ferida aberta”

  1. […] Não é a primeira vez que falamos desse artista enorme que é Yannick Hara. […]

Deixe uma resposta

Ver Mais

Descubra mais sobre Divergent Beats

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading