Nós começamos a conhecer Depois das Dunas escutando Marcela e colocando a banda no nosso Destaque da Escolha da Semana. Naquele momento, algo já tinha ficado muito claro pra gente: ali havia uma banda que não estava só fazendo música, mas tentando organizar sentimentos que todo mundo carrega e quase nunca consegue nomear. Marcela era bonita, sensível, direta — e o videoclipe ajudava ainda mais a entender o cuidado com as palavras, com a produção, com a atmosfera. Era o primeiro sinal de que valia a pena acompanhar de perto.
Depois disso, fomos ouvir Anseio. E aí a coisa ficou ainda mais evidente. A densidade sonora, a melancolia urbana, a ansiedade como motor criativo. Anseio falava daquele desejo quase sufocante de chegar em algum lugar, de alcançar algo que parece sempre um pouco fora do alcance. Uma música sobre inquietação, sobre o caminho, sobre o peso de querer muito — e não saber exatamente o quê.
Tudo isso vindo de uma banda formada no fim de 2023, na zona oeste de São Paulo, por Arthur Pasini, Wesley Santana, Paulo Brito e Denis Scapin, com uma proposta muito clara: fazer rock alternativo em português, olhando para a memória, o cotidiano e as angústias reais de quem está tentando existir agora.
E então chega “Tempo”, o novo single — e, pra gente, o ponto mais forte desse ciclo até aqui.
Tempo é daquelas músicas que não passam batido. Ela te chama para pensar, mas não de um jeito abstrato ou distante. Ela te puxa pela mão e te coloca frente a frente com uma das maiores angústias da vida adulta: a sensação constante de estar atrasado.
A letra fala sobre envelhecer perdido dentro de uma sociedade pré-moldada, sobre expectativas de sucesso, sobre o medo de não se encaixar, sobre achar que já é tarde demais. E quando o refrão chega com:
“todo dia a lutar, tento recuperar esse tempo que passou”,
não tem como não sentir. Porque é exatamente isso que muita gente está fazendo todos os dias — lutando contra um relógio invisível, tentando recuperar algo que nem sabe exatamente quando perdeu.

A sonoridade acompanha esse peso com muita inteligência. Nada sobra, nada falta. Os instrumentos entram no momento certo, a dinâmica da música respira, cresce, segura, explode e volta.
A voz do vocalista é linda, honesta, carregada de emoção sem exagero. Dá pra sentir o amor pela música, a paixão pelo que está sendo construído, e também as raízes claras dessa banda dentro da cena independente brasileira — influências que passam por Molho Negro, Terno Rei, Jovens Ateus, Menores Atos — mas sem nunca soar como cópia. Depois das Dunas tem identidade.
O mais bonito de tudo é perceber como Marcela, Anseio e agora Tempo se conectam. São músicas diferentes, mas que conversam entre si. Falam de ansiedade, de amor, de expectativa, de amadurecimento, de tempo — esse tempo que machuca, que passa rápido demais, que cobra, que pesa. É como se a banda estivesse construindo, faixa a faixa, um retrato muito honesto do que é crescer hoje.
Depois das Dunas é exatamente esse tipo de banda que dá vontade de acompanhar de perto. Daquelas que fazem você torcer por um álbum, por um disco inteiro, por uma obra maior. Porque dá pra sentir que quando isso acontecer, não vai ser só um conjunto de músicas — vai ser um registro emocional de uma geração tentando se entender.

E sim, hoje a nossa faixa favorita é Tempo. E a sensação é simples: a gente não vê a hora de ouvir o que vem depois.
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