Hoje de manhã, graças à banda Desculpa — de quem já falamos aqui na revista —, chegamos até o novo EP da Tran. E foi um daqueles momentos raros em que a curiosidade vira impacto imediato. A gente deu play sem expectativa… e em poucos minutos já estava completamente dentro. Como começar o dia com algo que te desloca por inteiro, que muda o eixo do corpo e da cabeça, que te deixa de boca aberta antes mesmo do café esfriar.

A Tran é uma banda criada em Florianópolis em 2023, nascida do desejo real de construir uma sonoridade própria, sem concessões. O grupo mistura metal progressivo, nu metal e shoegaze de forma intensa e emocional, usando métricas complexas, mudanças inesperadas de ritmo, atmosferas densas e camadas sonoras que não servem para impressionar — servem para expressar. As letras transitam entre delicadeza e agressividade, falando de isolamento, tristeza, fúria, nojo, mas também de esperança e de um certo vislumbre onírico que aparece quando tudo parece escuro demais.

E tudo isso fica ainda mais forte quando você percebe como Escuro Iridescente foi pensado como um percurso emocional completo.

O EP começa quase de forma enganosa. Há uma sensação inicial de calma, de espaço aberto, de algo mais natural e contido — como se a música estivesse te convidando a entrar com cuidado. Por alguns minutos, parece que vai ser uma escuta mais tranquila, quase contemplativa. Mas essa calmaria não dura. Aos poucos, sem pedir permissão, o som começa a se transformar. As camadas ficam mais densas, o peso aparece, o ruído cresce. Quando você se dá conta, já está completamente imerso nesse barulho emocional que o EP constrói com tanta precisão.

São cinco faixas, 31 minutos e 15 segundos, e nenhuma delas existe isoladamente. Cada música empurra a outra, como se a Tran estivesse conduzindo a gente por dentro de um estado mental — aquele em que pensamentos, memórias e sentimentos se atropelam. As faixas longas não cansam; pelo contrário, elas permitem que a tensão respire, se acumule, exploda e volte a se reorganizar.

As letras são um soco direto, mas nunca vazio. Quando ouvimos:

“sem querer eu de novo apodreci / tentando fugir, eu achei o meu fim”,

foi impossível não parar tudo. É o tipo de verso que não tenta ser bonito — ele é honesto. Ele fala daquele momento em que você percebe que fugir também machuca, que às vezes o fim não está no outro, mas no desgaste interno.

Em outro ponto, a frase:

“pro sonho eu me procuro / aonde você foi? / aonde eu vou me encontrar?”

bate fundo porque é universal. Não é só sobre alguém que se perdeu no caminho, mas sobre a própria identidade, sobre tentar se reconhecer depois de uma ruptura — seja ela amorosa, emocional ou existencial.

E então vem o fechamento.

A última faixa, “Eu Me Procuro”, faz algo que poucas obras conseguem: ela devolve o silêncio. Depois de toda a densidade, do peso, do ruído, da intensidade acumulada, o EP volta a um espaço mais tranquilo, mais aberto, mais frágil. É como se, depois do caos, sobrassem apenas você e o que ficou. Sem defesa. Sem armadura.

Foi impossível terminar essa faixa sem ficar em silêncio. Daqueles silêncios longos, necessários. Com os olhos marejados. Não por tristeza apenas, mas por reconhecimento. Porque às vezes a música não precisa resolver nada — ela só precisa te acompanhar até o fim.

Escuro Iridescente nos fez sentir raiva, confusão, melancolia, empatia e, no final, uma espécie de paz estranha. A paz de quem foi atravessado por algo verdadeiro. Esse EP é grande porque é honesto. É grande porque não tenta ser fácil. É grande porque entende que emoção não é linha reta.

A Tran entrega aqui um trabalho raro dentro da música independente brasileira atual. Um disco que começa enganando, explode sem aviso e termina te deixando sozinho com você mesmo — e isso é poderoso.

E atravessou a gente.

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