Existem artistas que não escrevem músicas — escrevem processos.Gustavo Barrinovo é um deles. Desde o primeiro contato com ÊXTASE, ficou claro para nós que não estávamos diante de um disco qualquer, mas de um trabalho que nasce da escuta profunda, da vivência e da coragem de transformar o que é íntimo em linguagem artística.
Quando o álbum foi lançado, já havíamos falado sobre ele aqui no Divergent Beats. ÊXTASE nos atravessou desde a primeira audição — pela vulnerabilidade, pela espiritualidade cotidiana, pela forma honesta com que Gustavo transforma crescimento, fé, cansaço e desejo em som. Por isso, poder voltar a esse disco agora, com a oportunidade de conversar diretamente com Gustavo, soa como um presente. Um tempo a mais para entender de onde vêm essas canções e para escutar quem está por trás delas.
Fundador da banda O Bairro Novo e integrante do trio Veraneio, Gustavo construiu uma trajetória marcada pela fluidez. Folk, pós-punk, rock alternativo, pop e música nordestina coexistem de forma orgânica, sempre a serviço de um mesmo gesto: investigar o que significa existir, crescer e permanecer humano em meio ao cotidiano.
Gravado em espaços comuns — sua casa, apartamentos de amigos na Grande São Paulo —, ÊXTASE carrega uma intimidade rara. Produzido por Gabriel Iglesias, o disco respeita o silêncio, as imperfeições e a proximidade como parte da linguagem. Inspirado pelo espírito do faça você mesmo, por reflexões filosóficas e por referências visuais contemporâneas, o álbum busca algo quase esquecido: o sagrado acessível no dia a dia.
Ao longo de dez faixas, de ALFA à Transfiguração, Gustavo conduz o ouvinte por um percurso intenso, onde infância e maturidade, corpo e fé, medo e entrega coexistem. No Divergent Beats, a sensação segue a mesma: ÊXTASE não tenta agradar. Ele se permite ser vulnerável. E isso, hoje, é um gesto profundamente político.
A seguir, veja como Gustavo Barrinovo respondeu às nossas perguntas.
ÊXTASE soa como um verdadeiro rito de passagem: da infância para a maturidade, do humano para o divino, do corpo para algo que transcende. Em que momento da sua vida esse álbum começou a nascer — e o que precisou morrer em você para que ele pudesse existir?
Gustavo: Olha, é muito difícil pensar em um momento específico… Creio que ÊXTASE tomou forma de álbum quando o álbum tomou a minha forma de vida até então.
E, sendo bem sincero, a minha vida tem sido um ciclo constante (quem sabe em espiral) de Alfas e Apocalipses.
Então é um álbum extremamente intimista, a maioria dos ritos de passagem descritos são os meus próprios que tenho vivenciado todos os dias.
Eu sempre me considerei um observador mais do que um interventor, entende? Na maioria das vezes reprimo aquilo que sinto, principalmente os sentimentos negativos. E esse álbum pra mim foi, antes de tudo, um ato revolucionário comigo mesmo. Eu mergulhei em mim e me observei sentindo, pensando, sofrendo, amando, odiando, desejando, orando, enfim, vivendo, e, sem colocar tantos critérios externos sobre tudo isso, decidi me expor “nu de frente ao sol”, rs.
E nesse sentido, respondendo a sua pergunta, precisei matar uma boa parte de mim pra que a outra pudesse vir à tona através desse álbum.
O disco se abre com “ALFA” e se encerra com “Transfiguração”, criando um arco quase bíblico, místico e existencial. Você pensou em ÊXTASE como uma narrativa espiritual? Quem é esse “eu” que começa em ALFA e quem é o ser que chega ao fim desse percurso?
Gustavo: Com certeza.
Acredito que um dos principais problemas hoje em dia é a falta de sentido por trás das coisas. Como diz Adelia Prado, é olhar a pedra e ver só pedra. Nesse sentido, eu leio a Bíblia sempre que posso e tento extrair dela símbolos e significados pro meu cotidiano. E dentro disso, eu sou muito adepto à ideia que existe no Novo Testamento de que todos são sacerdotes, ou seja, não há mais necessidade de intermediários entre o ser humano e Deus, esse é um princípio que eu tento trazer o tempo todo no álbum. Cada um tem o seu acesso ao divino, e se não tem, pode buscar um, sabe?
Então esse “eu” que começa a caminhada é um “eu” que se sente compelido a buscar um significado na realidade, um “eu” que se sente atraído pelo sagrado, que antes tão distante, acaba se tornando cada vez mais próximo e isso vai ganhando forma ao longo do álbum por diversas narrativas, até o momento culminante onde após o Apocalipse, purificação através do caos, se instaura um novo marco fundante da existência, e esse novo “eu” recomeça de um novo ponto de referência, com um novo propósito por assim dizer.
Em “Musa”, você canta: “Eu já cansei de tentar ser a redenção de alguém. É uma rotina dos desesperados.” Há também essa imagem tão forte de estar “quase em frente ao paraíso, tão perto sem poder tocar”. O que essa Musa representa para você hoje: uma promessa, uma busca interminável ou um espelho das próprias ausências?
Gustavo: Existe um ponto limiar entre a falta constante e o preenchimento sempre inalcançável que podemos chamar de Fé.
MUSA traduz o movimento por uma certeza de algo improvável e até mesmo inalcançável, mas que te faz levantar todos os dias desejando, insistindo e esperando.
E nisso eu acredito mais no desejo de completude do que na própria completude.

Há uma vulnerabilidade radical em ÊXTASE, especialmente nesse ponto em que o menino encara o homem que está se tornando. Foi difícil permitir que essa fragilidade fosse tão exposta? Em algum momento você teve medo de se mostrar demais — ou esse medo já não fazia mais sentido?
Gustavo: Com certeza, e essa foi a minha maior dificuldade, pra ser bem sincero. Eu sou uma pessoa introvertida, mesmo precisando estar em contato com tanta gente o tempo todo. E o meu perfil é de ser um facilitador para que outras pessoas se tornem vulneráveis comigo, porém, a minha própria vulnerabilidade eu raramente exponho.
Então sim, foi muito difícil lançar esse álbum sem estar rodeado de pensamentos intrusivos como: “ninguém tem o mínimo interesse em saber o que você pensa sobre a realidade” ou “você não tem nada de relevante a mais pra colocar no mundo”.
E por mais punk que eu possa tentar ser ao buscar ignorar as expectativas, no fim existe esse “retrogosto” de desejo pela aprovação alheia que eu confesso ser bem merda, rs.
Em “ALFA”, versos como “Pacífico Senhor que me chamou”, “gemido inaudível” e “carícia assombrosa” revelam uma relação extremamente íntima com o sagrado, distante de qualquer dogma evidente. Que tipo de Deus — ou de presença — atravessa esse álbum?
Gustavo: Não sei se vocês já chegaram a ler a história bíblica de Enoque, mas ela tem sido a minha preferida nesses últimos anos. É extremamente curta, porém não menos significativa por isso. A narrativa conta que Enoque andou com Deus, e que devido a essa relação ter se tornada extremamente íntima, Deus decidiu tomá-lo pra si.
Isso me encanta, o texto não descreve como foi que Enoque andou com Deus. Ele não descreve os cinco passos ou hábitos essenciais para alguém que deseja andar com Deus… longe disso, ele apenas narra o que aconteceu. É um mistério, é simples e ao mesmo tempo grandioso. Enoque andou com Deus, no dia a dia, na rotina, no silêncio, e foi nesse lugar invisível que o milagre aconteceu.
Essa é a presença que tem me atravessado. Um Deus que produz milagres significativos onde realmente importa e, diga-se de passagem, geralmente aquilo que a maioria pensa ser importante pra ele pouco importa. É um Deus silencioso, extremamente pessoal, que não necessita de gritos em defesa do seu nome, pelo contrário, pra melhor ser compreendido ele muda de nome. E quanto mais definições afirmo tenho sobre ele, mais distante estou dele. E quanto mais dúvidas coloco aos seus pés, mais espaço dou pra ele caminhar através de mim.
E assim como fez da água vinho, faz do banal êxtase.
O álbum foi gravado em casas, apartamentos e espaços cotidianos. Essa escolha parece dialogar diretamente com a ideia do sagrado acessível, presente na vida comum. De que forma esses ambientes influenciaram emocionalmente e espiritualmente a construção sonora de ÊXTASE?
Gustavo: Desde o início, tanto eu como o Biel (Gabriel Iglesias – Produtor) decidimos que o álbum deveria soar o mais intimista possível, e com certeza a ideia de gravarmos o álbum inteiro praticamente em nossas casas, contribuiu para que isso acontecesse.
Há um tempo atrás, certo artista amigo meu veio com a ideia de gravarmos uma música juntos em um desses estúdios renomados de SP. Porém, quando ele me mandou a referência, parecia que a música era gravada num quarto, e eu externalizei isso. Porém, no fim, ele decidiu que seria melhor gravarmos no estúdio para depois mixarmos como se estivéssemos em um ambiente íntimo e tudo mais. Eu aceitei, mas realmente saí dali pensando, porque então não gravar direto no quarto? Enfim…
Então se você ouvir alguma música do álbum e pensar “nossa, parece que isso aqui foi gravado com um celular em um quarto”, pode ter certeza que foi mesmo… É um álbum cheio de memórias facilmente acessíveis pra mim, que vão desde um vazamento sonoro, até mesmo o meu piano de sala levemente desafinado, mas que soa tão bem pra mim, sabe? Isso tudo dá mais significado a esse espaço sagrado chamado casa, e eu meio que carrego ele comigo aonde eu for, o que pra uma pessoa extremamente caseira como eu é ótimo.
Ao longo das dez faixas — de Indigo a Apocalipse, de Batismo a Menina — existe uma tensão constante entre êxtase e abismo, entre fé e profanação. O que você sentiu que precisou profanar dentro de si para continuar vivendo, criando e se auto-experimentando?
Gustavo: Durante muito tempo entendi a existência de uma maneira dualista, sabe? Meio que dividida entre mundo espiritual e mundo carnal. E nessas duas caixas ficava meio que tentando catalogar não só os meus atos como o de outras pessoas também.
À medida que o tempo foi passando, comecei a perceber que essa visão dualista me trazia sérios problemas que vão desde a falsa percepção de santidade, até a culpa por coisas minimamente absurdas.
ÊXTASE, nesse contexto, enquanto narrativa, busca pelo momento exato em que não sabemos mais distinguir o corpo do espírito. É o caminhar silencioso, pensando e sentindo o mundo pela ótica de Deus, entende?
E não dá pra encontrar Deus e ser o mesmo. Todo encontro com o divino te leva ou mais próximo dele, ou mais distante. Se alguém diz que encontrou Deus e afirma continuar igual, pode ter certeza de que algum espelho por aí está sendo cultuado.
Tudo isso é necessário pra dizer que me vi e sempre me vejo precisando jogar partes de mim no Sheol pra continuar caminhando com Deus. São conceitos que aprisionam a vida. São costumes, ideias empoeiradas, antiquadas, ou frescas e modais, que nos impedem de estarmos próximos do que realmente importa.
Então é isso, precisei e ainda preciso profanar tudo aquilo que me distancia desse sincronismo com o divino, o obelisco mais importante pra mim no momento.
Para encerrar: qual é a sua mensagem para o Divergent Beats — e para todas as pessoas que se sentem deslocadas, sensíveis demais ou em constante busca por sentido dentro da própria existência?
Gustavo: A sensibilidade tem exigido cada vez mais coragem…
E para aqueles que não temem a fé, o ÊXTASE vem.
https://www.instagram.com/gubarrinovo

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