Diretamente de Barra do Piraí, no interior do Rio de Janeiro, o duo Desire chega até nós como aquelas descobertas que não acontecem por acaso — elas encontram a gente no momento certo. Desde a primeira escuta, fica claro que aqui existem intenção, cuidado e, acima de tudo, sentimento.
O EP Desire, lançado em 16 de dezembro, é curto em duração, mas intenso em tudo o que propõe. São três faixas que constroem um universo próprio, onde o synth-pop, o new wave e o pop oitentista não aparecem como referência vazia, mas como linguagem viva. Cada batida, cada sintetizador e cada palavra parecem pensados para provocar algo físico: fechar os olhos, respirar fundo, deixar o corpo se mover.
Existe uma melancolia bonita nesse som. Um romantismo nostálgico que não paralisa, mas convida. Dá vontade de dançar, de viajar, de se perder um pouco — como em uma pista de dança imaginária, luz baixa, coração aberto. Um clima que remete a clubes londrinos dos anos 80, mas que conversa diretamente com o presente, com as angústias e desejos de agora.
A voz de Ana Clara carrega emoção sem excessos, enquanto as letras e programações de Matheus criam cenários internos onde amor, medo, liberdade e resistência coexistem. Em “Quando as bombas caírem”, tudo se intensifica: o mundo parece ruir, mas o corpo continua ali, dançando. Não por alienação, mas por escolha. Porque, às vezes, dançar também é um ato de sobrevivência.
Desire é esse tipo de projeto que nos lembra por que a música importa. Não para impressionar, mas para acompanhar. Não para explicar tudo, mas para sentir junto. Por isso, conversamos com o duo sobre processo criativo, escolhas estéticas, referências e a vontade de criar música honesta, que dialogue com quem escuta de verdade.
A seguir, você confere a nossa entrevista com o Desire.
Desire nasce em Barra do Piraí, longe dos grandes centros, mas com uma estética sonora profundamente urbana e noturna. Como esse contraste entre origem e imaginário influenciou a criação do projeto?
Ana: A ideia surgiu por não ser algo tão comum na região, mas ainda assim interessante. Quando o Matheus me chamou, ele já tinha o gênero em mente e eu aceitei por já gostar do gênero e do som que ele faz, e por já imaginar que teria uma certa influência gótica, juntando coisas que me agradam e que eu sabia que chamariam a atenção. Eu acho que tudo isso influencia de certa forma a criação.
Escolher o synth-pop, o new wave e o pop oitentista como linguagem em 2025 é quase um ato de resistência artística. O que motivou vocês a construir algo novo a partir de um legado tão forte, sem cair na nostalgia vazia?
Matheus: Acho que a influência dos anos 80/90/retrô nunca morre, sempre tem algum artista novo explorando algum som que já foi feito por esses períodos (o The Weeknd que o diga) porém, a maior parte da vontade veio por gostar de som eletrônico e temáticas/filmes sci-fi/retrofuturistas, e também das bandas e artistas desses períodos
A dinâmica entre vocês é muito clara: Ana Clara como voz e presença, Matheus como mente criativa por trás das letras e programações. Como funciona esse diálogo criativo e como vocês constroem juntos a identidade do Desire?
Ana: Primeiro, o Matheus desenvolve o instrumental e a letra, me mandando a ideia, então eu acompanho e encaixo minha voz principal, montando as vozes de fundo e harmonias como bem entendo.
O EP “Desire”, lançado em 16 de dezembro, tem apenas três faixas e pouco mais de dez minutos, mas cria um universo completo. Por que escolheram a concisão como forma narrativa para esse primeiro trabalho?
Desire: Geralmente, as músicas que são postadas/vão pro EP são as que a gente acha que tiveram o melhor resultado final, por mais que algumas outras estejam guardadas/arquivadas, aproveitamos as que a gente acaba achando melhor postar. (Porém algumas ficaram pro segundo EP ou para serem lançadas futuramente)

Faixas como “Anjo” e “Flores” evocam um romantismo melancólico, quase cinematográfico. As palavras, os synths e os beats parecem pensados para fazer o ouvinte fechar os olhos e dançar. Que tipo de emoção vocês queriam despertar nesse encontro entre som e sentimento?
Matheus: Quando escrevi ”Flores” me veio em mente algo que o The Cure faria em inglês, por alguma razão imaginei eles cantando essa música em inglês como se fosse uma balada lenta (talvez a gente refaça ela em inglês alguma hora inclusive) e acho que acabou funcionando muito bem, é como se fosse aquela coisa do ”gosto tanto que até dói”.
Anjo é uma faixa com influência direta do som darkwave mesmo, sempre penso em uma letra que vai combinar com a atmosfera sonora da música.
“Quando as bombas caírem” é um dos momentos mais intensos do EP: o mundo parece desabar enquanto o corpo continua dançando. Essa faixa fala sobre caos, liberdade e sobrevivência emocional. De onde nasceu essa imagem tão poderosa?
Matheus: Quando escrevi essa música e pensei na sonoridade dela, era pra ser algo como se fosse “Andar a noite em Chernobyl” ou meio e era pra ser jeito eletrônico pesado e devagar (Influência direta do Kraftwerk).
Praticamente, essa música fala sobre guerra e, se talvez um dia não nos cuidarmos, o resultado vai ser esse. (Vide os acontecimentos atuais do mundo; acho que acertei bastante na letra.)
É impossível não associar o som do Desire a uma pista de dança londrina dos anos 80, dialogando com referências como Pet Shop Boys, Depeche Mode e The Human League. Como vocês filtram essas influências para criar algo que ainda soa urgente, atual e pessoal?
Desire: É uma junção de influências que vêm de artistas/bandas dos anos 80 e 90, desde o synth pop/new wave, da música eletrônica até o rock alternativo inglês desses períodos.
O fato de ser em PT-BR acho que ajuda bastante e também, acho que nem todas as músicas nossas se parecem ou os temas sempre se parecem, isso é bom pois ajuda a não ficar tudo saturado/cansativo.
Para finalizar: qual é a mensagem que o Desire gostaria de deixar para os leitores da Divergent Beats — sobre música, identidade, liberdade e a coragem de dançar mesmo quando tudo parece estar caindo ao redor?
Desire: Só começa se vocês não começarem; nunca vão saber aonde teriam chegado.
”O pior naufrágio é não partir”.
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