Foram muitos os artistas que, em 2025, lançaram álbuns que funcionam como verdadeiros retratos do Brasil — social, político, humano. Discos que não existem apenas para entreter, mas para dizer algo. Ainda assim, poucos conseguiram transformar essa leitura em algo tão inteiro, tão consciente e tão necessário quanto Zabú.

Escutar A Velha História de um Novo Alguém é entrar em contato com uma obra que não pede contexto: ela se explica sozinha, porque nasce da vivência. Desde os primeiros beats, fica claro que estamos diante de um álbum que se ancora no boom bap como base histórica, não como fetiche nostálgico, mas como posicionamento.

O boom bap aqui é memória viva, é chão, é identidade. É a linguagem escolhida para contar uma história que vem de longe, mas que fala diretamente com o agora.

Zabú constrói esse disco como quem escreve um documento. Cada faixa carrega território, corpo e experiência. A produção é cuidadosa, densa, cheia de camadas, com recortes sonoros que dialogam com o hip hop clássico, mas também com o presente — trap, drill, texturas mais cruas, samples que atravessam jazz, soul, MPB. Nada soa deslocado. Tudo parece existir exatamente onde deveria.

Para quem, como muitos de nós no Divergent Beats, cresceu nos anos 90 escutando rap, esse álbum bate de um jeito especial. Não é só reconhecimento estético — é memória afetiva. É ouvir os beats e perceber que ali existe respeito pela história do hip hop, mas também coragem para seguir em frente sem pedir permissão.

Zabú não transforma o passado em museu. Ele usa o passado como ferramenta.

Mas o que realmente torna esse trabalho gigantesco é a forma como Zabú transforma experiência vivida em palavra. Ele escreve sobre ser um artista negro no Brasil sem romantizar dor. Escreve sobre viver no interior do Rio de Janeiro, longe da narrativa do cartão-postal, onde a realidade é mais dura, mais silenciosa e mais constante. Escreve sobre família, fé, medo, sobrevivência, futuro.

Há versos que ficam atravessados no peito justamente porque não tentam ser poéticos — são reais. Em uma das letras mais marcantes do disco, ele toca num ponto que atravessa gerações: a mãe que continua a rezar porque sabe o que significa criar um filho negro num país estruturalmente desigual. Isso não é figura de linguagem. É cotidiano.

Faixa após faixa, sempre existe algo que te pega desprevenido. Um verso que desmonta. Um silêncio que pesa. Um beat que entra no momento exato. É aquele tipo de álbum que te deixa em silêncio depois que acaba, porque você sente que acabou de ouvir algo importante. Algo que precisava existir.

Quando a versão Deluxe chega, em dezembro, ela não soa como sobra ou extensão comercial. A Velha História de um Novo Alguém (Deluxe) funciona como uma ampliação natural desse universo. Novas faixas, remixagens e colaborações aprofundam ainda mais os temas já apresentados, como se Zabú dissesse que essa história ainda não terminou — ela continua se transformando, assim como quem a vive.

Aqui no Divergent Beats, a sensação é muito clara: esse álbum é um manifesto. Não só musical, mas cultural. Um registro honesto do Brasil visto por quem está dentro, não por quem observa de fora. Zabú não tenta ser universal. Ele é específico. E é exatamente por isso que o disco é tão poderoso.

Esse não é um álbum para tocar de fundo. É um álbum que exige escuta, atenção e presença. Um trabalho que reafirma por que o hip hop segue sendo uma das linguagens mais importantes da música brasileira. Para nós, não há dúvida: A Velha História de um Novo Alguém é um dos discos que definem 2025.

E discos assim não passam.

Eles ficam.

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