Algumas bandas não chegam devagar — elas atravessam.

E a escápula é exatamente esse tipo de banda.

Em 2025, eles não só chamaram a nossa atenção pela música, pelas melodias cortantes e pelas letras que deixam marcas reais, mas também por algo que diz muito sobre o momento que vivem: uma base de fãs viva, engajada, presente, que abraçou o primeiro artigo que publicamos sobre eles e espalhou a palavra como só quem se reconhece em uma banda consegue fazer.

Foi impossível ignorar.

E, claro, não poderíamos deixar essa conversa escapar.

A escápula representa muito do que nos move aqui no Divergent Beats: um rock alternativo que nasce da vulnerabilidade, da raiva, da melancolia, mas que também se transforma em movimento, em corpo, em energia coletiva. Uma banda que vem de Curitiba — uma cidade que, para nós, tem se revelado um verdadeiro epicentro criativo do rock brasileiro contemporâneo.

Tivemos o prazer de conversar com Diogo, que respondeu representando toda a banda, sobre música, processo criativo, cicatrizes emocionais, política, cena independente e esse momento tão intenso que a escápula está vivendo.

Aqui está a entrevista.

Essas são as perguntas que fizemos — e as respostas que mostram por que a escápula é uma das bandas mais importantes para se ouvir agora.

A Escápula nasce em Curitiba, uma cidade que hoje pulsa forte dentro do rock alternativo brasileiro. Como vocês sentem essa cena local e de que forma ela atravessa — ou tensiona — o som que vocês constroem?

Diogo: A gente fala nos shows sobre como o neoliberalismo impõe uma individualização dos fracassos e dos sucessos, isso promove uma competição que é uma armadilha. Pra gente é muito importante e muito massa estar em contato com as outras bandas daqui e colaborar. Nesse sentido, trabalhar e desejar o melhor pra gente e pras outras bandas é em si uma forma de protesto também.

As músicas de vocês falam muito sobre cicatrizes que não são só físicas, mas emocionais, sociais e até políticas. Em que momento vocês perceberam que a dor também podia virar movimento, energia e até algo dançante?

Diogo: Desde que a gente começou a escápula a ideia era falar sobre as coisas que tocam a gente de verdade, elaborar essas emoções e expressar elas com sinceridade. Com isso, a gente espera que o som bata em quem ta ouvindo e que isso movimente todo mundo, como as emoções movimentaram a gente pra criar cada música.

Eu (Diogo) percebi na adolescência que quando eu me sentia mal eu procurava na música um conforto ou pelo menos uma identificação, ver que alguém sentia a mesma coisa, ou algo parecido. Ver na expressão pela arte o que eu tava sentindo me ajudava a me sentir menos sozinho e eu me sentia melhor. Notava que eu costumava procurar transformar tristeza em raiva porque eu achava que a raiva é uma emoção que movimenta hahahahahah mas eu entendo hoje que todas as emoções movimentam, a gente só precisa entender o que elas querem.

Especificamente em “era mais fácil” eu falei pro Rafael que queria que a gente fizesse a música com o arranjo mais dançante entre todas as músicas que a gente tem até agora, justamente pra contrastar com o peso da letra. Dai a galera dança como forma de superar um momento difícil hahahahaha

Em “era mais fácil”, existe uma frase que marca profundamente: “a cicatriz eu não deixa esquecer, eu não tenho valor pra você”. Essa frase soa quase como um manifesto. De onde nasce essa ferida — e o que vocês querem que o ouvinte faça com ela?

Diogo: A frase é “a cicatriz não deixa esquecer, eu não tenho valor pra você”. Mas achei muito legal que você assimilou como “eu não deixo”, desse jeito é como se você conscientemente não quisesse esquecer hahahahahah
É comum a gente associar cicatrizes com marcas na pele, mas acho que as que mais deixam marca são as emocionais. Só não é tão fácil ver elas no dia a dia. No nosso caso a gente ta falando de relações em que existe a sensação de descarte, onde a pessoa é tratada como um produto que depois que foi usado e pode ser jogado fora. Tem um trecho que diz “eu não fui nada além de um cômodo, que serviu de suporte/eu não fui nada além de incômodo, uma respiração mais forte” exemplifica bem isso.

O restante da letra relata o desconforto de estar numa posição de vulnerabilidade nessa relação, e como era mais fácil quando a fantasia de solidão parecia uma saída lógica. Mas estar de fato em uma relação é estar vulnerável, né? É o risco a se tomar para viver de fato hahahahahah

O que a gente espera que vocês façam com isso é cantar bem alto hahahahaha em alguns shows a gente ensina o refrão dessa música antes de tocar ela, pra todo mundo cantar junto e ser uma experiência coletiva. No final das contas acho que o que eu espero é que as pessoas se sintam como eu me sinto quando escutava e escuto as músicas que me ajudam a lidar com as minhas questões. No final, todo mundo só quer ser compreendido.

O single “agonia” veio acompanhado de um clipe com uma estética retro-punk muito forte, gravado em Berlim. Como foi levar uma banda curitibana para esse cenário tão carregado de história, política e contracultura? O que Berlim devolveu para a escápula?

Diogo: No ano passado eu pedi demissão do meu trabalho, consegui um visto pra Alemanha e fui pra lá sem ter nada certo. No meio de todos os desafios do dia a dia de um imigrante sempre ficava atento em oportunidades de conhecer artistas locais e qualquer chance de colaborar com algum projeto ou só fazer amizade. Foi nisso que eu encontrei a Marcela Fagnello que estava procurando artistas autorais para fazer um clipe, eu enviei o material que tinha da escápula e ela e a equipe curtiram muito nosso som.

Depois que nós terminamos as filmagens eu lembro que perguntei pra ela porque ela tinha escolhido a gente e ela comentou que enquanto ouvia “agonia” ela já começou a visualizar como seria o audiovisual e que tinha sido uma escolha intuitiva daí. Tinha uma equipe multicultural e foi meio que um sonho ter isso rolando.

Equipe que fez o clipe acontecer:

Direção: Marcela Faganello (@mafagal__)

Concepção estética e visual: Diogo Espejo e Marcela Faganello

Câmera: Abhiroop Banerjee e Gónza Rammsy

Figurino: Sonya Aleksandrova e Gónza Rammsy

Assistente de direção: Gónza Rammsy

Assistente de set: Annie Thorndike e Dixita Gupta

Edição: Abhiroop Banerjee e Marcela Faganello

Colagem: Miriam Albertí

Atuação: Annie Thorndike como Entidade e Diogo Espejo como ele mesmo 

A vida é muito doida né, esse clipe colocou a gente num novo patamar de banda, digo isso em relação a nós mesmos. A estética diz muito do que queremos transmitir e somos muito agradecidos pelo trabalho de toda equipe que fez isso com a gente.

No artigo que escrevemos sobre vocês, percebemos algo muito bonito: existe um vínculo real entre a escápula e quem escuta. Um tipo de fanbase que se reconhece nas letras, que comenta, compartilha e se identifica profundamente. Vocês sentem que existe quase um “clube de cicatrizes” em torno da banda?

Diogo: HAHAAHHAHHAAUHAUAHAHA Clube de cicatrizes é um bom nome.

Quando a gente é muito sincero com nós mesmos isso tende a reverberar nas outras pessoas, seja da maneira que for. No nosso caso, procuramos fazer isso com nossas músicas e é muito bonito ver isso tocando as pessoas. Acho que isso é o tal do “dar certo”.
É claro que quanto mais gente ouvir e gostar é melhor e que novas oportunidades cheguem pra nós, mas o mais importante é que existam trocas reais. É a isso que a gente se propõe. 

Musicalmente, a escápula mistura agressividade, melancolia e vulnerabilidade sem medo. Como é o processo criativo de vocês? A letra nasce primeiro ou o som vem antes do sentimento?

Diogo: Geralmente eu escrevo as letras antes e ai a gente faz primeiro voz e violão pra estruturar a música e depois fazemos o arranjo completo. É uma ideia de fazer a música funcionar do jeito mais simples e ai depois incrementar. Nem todas foram assim, mas das 9 músicas que a gente tem prontas acho que 7 foram desse jeito.

2025 vem se mostrando um ano muito potente para a música brasileira independente. Onde vocês sentem que a escápula se posiciona dentro desse momento — e o que ainda querem provocar, incomodar ou emocionar?

Diogo: Nesse ano lançamos novos singles: quebrado e incompleto e era mais fácil. Com elas temos 4 singles disponíveis pra galera ouvir nas interwebs. A gente tem algumas referências sonoras como idles, deftones, basement, a perfect circle e menores atos. Quando me perguntam sobre o gênero da escápula eu não sei dizer, tenho respondido que é um punk melancólico ou etno-punk. 

O que queremos é gerar movimento, criar comunidade, não queremos criar mercadoria. A escápula é pra lembrar que a dor não nos cala, ela nos movimenta. Se sofremos, não sofremos sozinhos. Quando gritamos, esperamos que vocês também gritem para alguém e se for pra quebrar algo que sejam as coisas e não as pessoas. A nossa música não paralisa, ela incita. Transforma dor em dança, raiva em conexão, abandono em pertencimento.

Para fechar: qual é a mensagem que a escápula gostaria de deixar para os leitores da Divergent Beats — pessoas que vivem a música como identidade, refúgio e resistência?

Diogo: É comum nos sentirmos sozinhos e desamparados, mas olhe ao redor e veja quantas pessoas estão como nós. Estamos dentro de um contexto social e político que impõe a individualização de tudo, só vamos conseguir chegar em algum lugar por meio da colaboração. Se eu cair você me levanta, se você cair eu te levanto.

É importante estarmos atentos aos nossos valores e construir nossa comunidade em torno disso, da maneira que conseguirmos. Angústia, solidão e ansiedade são também um sintoma social, são problemas estruturais e que não vamos conseguir resolver sozinhos. Cuidem de si e cuidem uns dos outros.

Na escápula é assim que pensamos e é isso que fazemos.

https://www.instagram.com/escapula.band



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