A gente continua garimpando nova música. Continua procurando sons que tenham verdade, identidade e aquele algo a mais que não se fabrica em algoritmo. E, nesse caminho, seguimos encontrando artistas que fazem todo sentido dentro do universo Divergent Beats.
Um desses encontros felizes atende pelo nome de Madame Salame.
Direto do Rio de Janeiro, o power trio formado por Hanna Halm (baixo e voz), Lety Lopes (guitarra e voz) e Juliana Marques (bateria e voz) chega com um indie rock cru, honesto e cheio de personalidade — daqueles que te fazem lembrar por que você se apaixonou por música em primeiro lugar. A banda lança seu primeiro EP homônimo, Madame Salame, com 5 faixas, pelo selo Efusiva Records, e entrega exatamente o que promete: som sem maquiagem, emoção sem filtro e liberdade criativa total.
Madame Salame soa como aquela fase dourada do indie dos anos 90, quando fazer música era também um gesto de liberdade, de vida, de expressão pura. Mas nada aqui soa datado. Pelo contrário: é vintage no espírito e totalmente atual na atitude.
Um EP para fechar os olhos, dançar pela sala e esquecer o mundo lá fora
Desde o primeiro play, Madame Salame é amor à primeira escuta. A voz é perfeita no sentido mais humano da palavra — imperfeita, viva, verdadeira. As guitarras respiram, o baixo conduz, a bateria pulsa. Tudo soa real. Tudo soa próximo.
É um EP que te transporta para um tempo em que a música não precisava competir com notificações, feeds infinitos ou inteligência artificial. Um som que dá arrepio justamente por lembrar que ainda é possível criar algo bonito, sincero e profundamente humano.
A abertura vem com “Decaf”, que entra de mansinho e, de repente, te puxa para dançar. Um rock pra dar aquele gás, como um café forte no meio do dia.
Em seguida, “Zero a zero” acelera a pista com uma homenagem à vida social que promete, promete… e nunca entrega — e ao futebol sofrido que a gente insiste em amar. Quem nunca?
O clima muda em “Corredor de espera”, faixa mais densa e introspectiva, que carrega ecos da antiga banda Tuíra, projeto anterior de Hanna Halm e Juliana Marques. Aqui, a vulnerabilidade fala alto. E fala bonito.
Logo depois, “Brilho intenso”, de autoria de Lety Lopes, traz aquele contraste clássico do indie 90s: suavidade e peso convivendo na mesma faixa. Uma canção que brilha justamente por saber ser delicada e barulhenta ao mesmo tempo.
Fechando o EP, “DM tinta” é um dos momentos mais potentes do disco. Uma homenagem à artista do grafitti Dâmaris Felzke, falecida em 2024, que assinava suas obras como DM. A música traduz a urgência de criar, de deixar marca, de existir artisticamente em meio ao caos urbano — efêmero, intenso e inesquecível.
É som para colocar no repeat. Sem culpa.
Divergent Beats Feelings: música que respira, gente que sente
Aqui no Divergent Beats, a gente não escuta música só pra passar o tempo.
A gente escuta pra sentir alguma coisa. Pra se reconhecer. Pra se perder e se encontrar de novo.
E o EP Madame Salame faz exatamente isso.
Ele não pede atenção — ele puxa.
Não tenta impressionar — ele conecta.
Não grita por validação — ele existe.
Existe como um lembrete de que ainda dá pra fazer música sem manual, sem tendência forçada, sem fórmula pronta. Um som que parece dizer: “relaxa, fecha os olhos, sente”. E pronto.
O que mais nos pega aqui é essa sensação de liberdade quase esquecida. Aquela vibe pré-algoritmo, pré-feed infinito, pré-pressão por performance. Madame Salame soa como quando a gente fazia playlists não pra postar, mas pra sobreviver. Quando ouvir música era um ato íntimo, quase secreto.
É indie rock que não tenta ser cool — é cool porque é honesto.
É nostalgia sem saudosismo. É dança sem coreografia. É emoção sem legenda.
E talvez seja por isso que bata tão forte na nossa geração. Porque a Gen Z tá cansada de tudo que parece falso, otimizado demais, perfeito demais. A gente quer o erro bonito, o som que falha, a voz que treme, a letra que dói e abraça ao mesmo tempo.
Madame Salame entrega isso tudo sem esforço aparente. E isso é raríssimo.
A música brasileira sempre foi potente, mas projetos como esse mostram que ela continua viva, inquieta e mutante. Enquanto muita coisa lá fora soa pasteurizada, aqui ainda tem gente criando com o corpo inteiro, com o coração exposto, com coragem.
Esse EP não é só pra ouvir. É pra habitar.
É pra virar trilha sonora de noites confusas, de tardes quentes, de momentos em que a gente só precisa lembrar quem é.
Madame Salame não está só lançando um EP.
Está abrindo um espaço. E a gente, do Divergent Beats, entra de fone, peito aberto e volume alto. Porque quando a música é de verdade, a gente sente.E quando a gente sente, a gente sabe.




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