Existem artistas que não gritam para serem ouvidos.
Eles simplesmente cantam verdades — e isso ecoa mais longe do que qualquer hype.
Thiago Juliani é um desses nomes. Cantor e compositor paranaense, radicado em São Paulo desde 2011, ele construiu ao longo dos anos uma trajetória sólida, sensível e coerente, transitando com naturalidade entre a canção brasileira, o folk, o blues, o rock e os ritmos afro-brasileiros. Um artista completo, respeitado — inclusive pela Guitar Player, que o apontou como um dos grandes guitarristas de sua geração —, mas que nunca perdeu de vista o essencial: contar histórias que importam.
Thiago não faz música para agradar algoritmos. Ele faz música para atravessar pessoas. E isso fica cada vez mais evidente em seus trabalhos recentes, especialmente no álbum Dois (2024), um disco que respira maturidade, miscigenação sonora e escuta profunda. Um trabalho que nasce da calma do interior de Minas Gerais, mas conversa diretamente com o caos das grandes cidades, com suas contradições, silêncios e feridas abertas.
E talvez nenhuma canção represente isso tão bem quanto “Ela Não Escolheu”.
“Ela Não Escolheu”: dançar, sonhar — e encarar a realidade
No momento em que nos deparamos com Ela Não Escolheu, foi imediato: nos apaixonamos.
Pela voz — forte, sensível, profunda. Pela melodia — envolvente, quase hipnótica. E, principalmente, pela história que ela carrega.
A canção, construída sobre o ritmo Ijexá, nos convida a dançar, sonhar, flutuar. Mas, por baixo dessa leveza aparente, existe um soco silencioso no estômago. Ela Não Escolheu conta a história de uma mulher em situação de rua que morre de frio. Uma narrativa dura, real, cotidiana — e ainda assim ignorada.
Thiago canta sobre o que ele mesmo define como “o pior sentimento que existe”: a indiferença.
Ao chegar em São Paulo, o choque foi inevitável. A miséria exposta, normalizada, atravessando avenidas, pontes e olhares que escolhem não ver. Uma frase pichada na Avenida Rebouças — “A rua é sua vitrine, anda só, de touca e cachecol” — virou gatilho para uma reflexão que ficou guardada por mais de uma década. A música foi escrita em 2012, mas precisou de tempo, maturidade e respeito para finalmente nascer como deveria.
Há também um gesto bonito e consciente na escolha estética. Vindo de uma base musical muito ligada ao blues, Thiago reflete sobre as conexões profundas entre os ritmos afro-americanos e afro-brasileiros. Robert Johnson e Dorival Caymmi não estão tão distantes quanto parecem. Existe ali um fio invisível de dor, resistência, espiritualidade e beleza. E agora, mais do que nunca, Thiago se sente pronto para pisar nesse território com verdade.
O resultado é uma canção que faz exatamente o que a grande arte faz:
te envolve — e depois te obriga a pensar.
Um artista em movimento (e em expansão)
Mesmo com uma carreira já consolidada, Thiago Juliani vive um momento especial. Pouco tempo após o lançamento de Dois, ele decidiu compartilhar também as versões demo do álbum — um gesto raro, generoso, que revela o artista em estado bruto, em processo, em construção. Um convite para enxergar a música em todas as suas camadas.
Dois é miscigenação pura: tambores afro-brasileiros, harmonias mineiras, folk, rock, pop, introspecção e explosão. Um disco feito por quem entende que identidade não é limite — é mistura. Com produção assinada por Thiago e Fred Calazans, o álbum marca um ponto alto de sua trajetória e abre ainda mais caminhos, inclusive com o anúncio de uma versão deluxe prevista para abril de 2025.
No Divergent Beats, a sensação é clara e difícil de ignorar: estamos testemunhando, em tempo real, o surgimento de um daqueles artistas brasileiros que não apenas acompanham a cena, mas a transformam. Thiago Juliani faz parte de uma geração que entende a música como linguagem viva, como gesto político, emocional e espiritual ao mesmo tempo.
O que ele constrói não nasce do excesso, nem do ruído. Nasce da escuta atenta, do respeito às histórias que escolhe contar e da coragem de permanecer vulnerável. Há profundidade no seu silêncio, consciência nas suas escolhas e uma sensibilidade que não se explica em palavras — se sente no corpo, no tempo da canção, no espaço que ela ocupa depois que termina.
Thiago não busca respostas fáceis nem caminhos seguros. Ele observa, absorve e transforma realidade em arte com um cuidado raro. E é exatamente por isso que sua música permanece. Porque ela não pede urgência, não exige atenção — ela conquista. Aos poucos, com verdade.
É esse tipo de artista que está mudando a música brasileira agora, diante dos nossos olhos. Não pelo volume, mas pela permanência. Não pelo espetáculo, mas pela profundidade. E o mais bonito é perceber que essa mudança acontece enquanto ele segue caminhando, criando e se permitindo atravessar — junto com quem escuta.
Ela Não Escolheu não é só uma canção.
É um espelho.
E, depois de escutar, fica impossível fingir que não vimos.



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