Eduardo Praça nunca foi um artista de meias palavras. Sob o nome de Apeles, o músico paulista cria universos que soam como confissões abertas, às vezes brutais, às vezes delicadas, mas sempre carregadas de verdade. Depois de experiências passadas com bandas como Quarto Negro e Ludov, ele segue o caminho solo e chega agora a um dos trabalhos mais íntimos e diretos de sua carreira: Cru.
Gravado em apenas um dia no White Noise Studio, em Los Angeles, sob a produção de Leonardo Marques, o disco é exatamente o que o título anuncia: cru, sem filtros, sem maquiagem. Um retrato imediato, quase visceral, de um artista que decidiu se expor sem medo.
Ao apertar o play, mergulhamos não só na voz e na melodia de Apeles, mas também na força, na nostalgia e na vulnerabilidade que atravessam cada faixa. É uma viagem que une folk-blues e elementos quase lisérgicos, que cria paisagens sonoras entre o real e o onírico. No começo de Rebecca, por exemplo, ouvimos gravações de rua de São Paulo, um canto tímido em meio ao caos urbano, que nos prepara para o mergulho no íntimo.
E Cru também é um álbum que pede espaço. É daqueles discos para ouvir caminhando em meio à natureza, sentindo o vento no rosto e deixando que cada canção dialogue com o silêncio da paisagem. Nessa conexão, a vulnerabilidade ganha ainda mais potência: como se as músicas respirassem junto com a gente.
Cru é mais que um álbum: é um diário sonoro. Fala de saúde mental, de deslocamento — marcado pela mudança para Berlim — e de feridas que se transformam em arte. E aqui, a dor não paralisa: ela dança, ela ecoa, ela constrói.
Ao final da audição, resta a sensação de ter atravessado um túnel emocional: pesado, sim, mas também iluminado pela beleza da vulnerabilidade. E é justamente nessa contradição que Apeles encontra sua força — transformando a fragilidade em música, e a música em catarse.
Ivan Jude Gorini
Apeles – Cru: between poetry and raw scars
Eduardo Praça has never been an artist of half-truths. Under the name Apeles, the São Paulo musician builds sonic universes that feel like open confessions — sometimes brutal, sometimes delicate, but always drenched in honesty. After years with projects such as Quarto Negro and Ludov, his solo path now leads to one of the most intimate and unfiltered works of his career: Cru.
Recorded in just one day at White Noise Studio in Los Angeles, produced by Leonardo Marques, the album is exactly what its title suggests: raw, stripped down, without disguise. A visceral snapshot of an artist unafraid of exposing himself.
From the very first track, we’re not just listening to Apeles’ voice and melodies — we’re pulled into the strength, the nostalgia, and the vulnerability carried in each song. It’s a journey that blends folk-blues with almost psychedelic textures, creating landscapes that hover between reality and dream. In Rebecca, for instance, we hear São Paulo’s urban noise, a shy hum at a bus stop, opening the gates for intimacy.
But Cru is also an album that demands space. It’s the kind of record to listen to while walking in nature, feeling the wind against your skin, letting each song converse with the silence of the landscape. In that connection, its vulnerability expands — as if the songs were breathing alongside us.
Cru is more than an album: it’s a sonic diary. It speaks of mental health, of displacement — marked by his move to Berlin — and of wounds transformed into art. Here, pain doesn’t paralyze; it moves, it resonates, it creates.
By the time the album ends, we’re left with the feeling of having crossed an emotional tunnel: heavy, yes, but also illuminated by the beauty of vulnerability. And it is in this very contradiction that Apeles finds his strength — turning fragility into music, and music into catharsis.




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